Lutar á português
Somos portugueses.
Dizem que somos do fado, da saudade, da simpatia, do bem
acolher e da esperança, mas esquecem-se que somos, também, da persistência, da
resistência, da luta constante, das alegrias partilhadas, dos abraços e beijos
que não podemos distribuir, agora.
Somos uma nação unida, que, agora, dá valor ao ar que vai
estando condensado dentro das nossas casas, que viaja apenas entre os nossos
pulmões. Somos uma nação que dá valor às ruas que estão agora cobertas por um
silêncio e solidão que nos abala e entristece a alma, um silêncio que nunca nos
pertenceu. Sente-se falta do barulho, do som dos passos de pessoas da terra e
de pessoas de outras terras que fazem de Portugal um país do mundo, um país
plural. Mata-nos ver a nossa Lisboa, o nosso Porto, todo o nosso Portugal
despido das suas gentes, da sua identidade, da sua língua lusitana que vibra
nas cordas vocais das pessoas que pintam, de Norte a Sul, este país que é tão
nosso com a sua singularidade cultural.
Somos do mundo, daquele que agora chora connosco, que nos vê
morrer assim, sem lutar, às vezes, que nos vê abandonar os nossos familiares,
que nos vê presos dentro daquele espaço para o qual ansiávamos, todos os dias,
voltar e de que, agora, tanto queremos sair.
Somos do Atlântico, somos dos cantares alentejanos, somos da
cooperação, somos da companhia, somos de calor humano, somos da Natureza, somos
e fomos. Somos história, aquela que é contada e aquela que só alguns conhecem.
Somos do segredo, aquele que só nós sabemos, aquele que nos rega a alma, aquele
que nos sacia a sede de vencer, a sede de Existir, a sede de pintarmos a alma a
verde, vermelho e amarelo, as cores de uma nação que existe e que é, que deixa
os seus habitantes serem, que lhes confere a liberdade que conquistámos, com a
união que só nós sabemos e conhecemos.
Somos portugueses, daqueles que em tempos se aventuraram
pelos mares e oceanos desconhecidos e implacáveis, que deixaram em nós história
e prestígio, amor, engenho e arte, daqueles que deixaram gentes, descendentes
de heróis, de sangue oriundo de um país á beira-mar plantado que ficam, agora,
em casa, para se protegerem do que os mata, daquilo que os atormenta, a eles e
ao mundo.
Dizem que é o turismo que nos dá reconhecimento, que são as
águas do Tejo e dos seus amigos que, em estado líquido, correm, com pressa, por
um solo que nos saúda a pele, a melanina, o cheiro, que nos toca o coração, que
só cabe em nós. Dizem muita coisa sobre nós, sobre o que é nosso, mas o que faz
de Portugal um país reconhecido e amado são as gentes, são os portugueses, são
as almas dos que já partiram, dos que ainda cá moram e daqueles que voaram para
outro país em busca de uma vida melhor, mas que são tão nossos, como qualquer
outra pessoa, pois são eles que levam no coração, nas palavras, no sangue e na
forma de ser, um Portugal que lhes pertence, que é casa, que lutam, tal como
nós á português.
O que é lutar á português? É ficar em casa, fazer o que é
melhor para nós, não só por nós, por todos. É cumprir regras que protegem os
nossos, que protegem aqueles que não conhecemos, mas que, tal como nós, lutam
pelo mesmo, lutam contra o mesmo inimigo, que mesmo nos mantendo confinados
dentro de casa, nos deu a lucidez e sabedoria para nos apercebermos que não
devemos tomar nada por garantido, nada, ninguém, jamais. Lutar á português é
não desistir, é conectarmo-nos com as almas, sabendo e acreditando sempre que
vai ficar tudo bem.


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