Acorda, Alexandre!

Ontem, em conversa, contei à Cristiana que, na minha vida, escrevi poemas que nunca tinha publicado e que, do fundo do meu coração, quase com uma certeza inabalável, achava que nunca iria publicar. Este é um deles.
Tenho-o comigo há mais de um ano, escrevi-o num dia menos bom (daqueles que costumam culminar num bom conteúdo poético, a meu ver) e nunca senti a necessidade de o publicar, até hoje.
Analisem o contexto social e situação atual para que vos seja possível tirar as vossas próprias conclusões do porquê de o estar a fazer agora.

Só não age, só não fala e só não reage quem não sente o peso das correntes que nos silenciam a voz e nos prendem os movimentos. Sinto-as, ouço-as e tenho conversas, pouco poéticas, com as vozes da minha cabeça, a horas da madrugada em que deveria estar a dormir. Não é justo.

A realidade é que tenho frustrações e faço delas poemas e não canções, porque ainda não arranjei jeito e poesia suficiente para isso.

Não gosto muito de falar sobre elas porque me sinto vulnerável e frágil, porque me sinto exposta e pouco disposta a explicar o porquê. Não me interpretem mal, amo a vulnerabilidade em todas as suas intensidades e transparências, mas ao falar das minhas experiências sinto-me nua e despida de forma crua e dura, sinto-me demasiado real para quem escreve poesia e usa nos seus poemas promessas utópicas como "para sempre".

Sempre gostei  muito da ideia de perfeição, veja-se pelo nome deste blog, mas nunca fui adepta da pressão irrealista que costuma trazer no bolso das calças de ganga rasgadas nos joelhos. É assim que a imagino: Imperfeita. Sempre achei que a evolução nos trouxesse mais ao coração. Sempre esperei mais da humanidade. Fartei-me de esperar e, por essa mesma razão, comecei a escrever para mostrar o meu desagrado, a minha revolta e a minha luta, mas entretanto, por ironia da vida, tropecei nuns olhos verdes e agora quase que não sei escrever sobre outra coisa sem ser sobre o amor. Mas ainda o sei fazer de cor, tal como andar de bicicleta. Não se esquece. Não se desaprende. E não nos prende. Não nos aperta. Enche-nos as medidas e deixa-nos ser sem medida. 

Não sei bem se sou "robusta", mas simpática, se sou "flácida" ou se um dia voltarei a caber num 36, mas sei que a poesia de quem só sabe falar em prosa cortante me forçou a aprender, pela vontade em discordar, a amar as estrias, a celulite e os pequenos grandes pedaços de críticas que nos forçaram a querer mudar porque se lembraram que, num mundo cheio de plurais, o ideal era ser-se singular.
Vou aprendendo a amar as minhas curvas e a fazer delas armaduras para que possa continuar a lutar, lado a lado, com quem partilha este azar da sorte de ser mulher. 

Acorda, Alexandre! E não tentes adormecer, com essa tua ignorância e arrogância, quem ainda tem tanto a oferecer a este mundo. 



"Fiz um esforço maior para apertar as calças,
com as mãos a tremer
e o olhar a encher-se de mar.
tentei prender a respiração
na tentativa de me apagar,
na tentativa de me reduzir
a um tamanho que não me fizesse sentir
assim.
acreditei naquilo que me diziam
enquanto criança devia ser
quando tinha 11 anos e corria para me esconder,
para chorar na casa de banho da escola
enquanto do lado de fora
me convenciam que eu não valia nada.
"és muito chata", "és muito teimosa"
coisas de criança, coisas de escola,
um peso a mais na sacola
que lá não devia morar.

mas mora.


Aceitei a prescrição
acreditei que neste mundo
um dia
alguém só me amaria
se o meu corpo fosse capaz de fazer esquecer
tudo aquilo que eu era e que fui tentando ser.

Fiz de tudo para não chorar
para não me comparar,
mas o que de mau há nesta vida
é que, por vezes, não basta só tentar.

Se há feridas que não se curam
tatuei-as no coração,
na pele
e na sensação cruel
de me olhar ao espelho
e me perguntar baixinho
"mas o que é que te aconteceu?"

Vi-me perder o brilho
e a vontade de brilhar,
com toda a minha alma e coração
vi-me encontrar paz na escuridão
do meu quarto e na solidão da minha vida
porque aprendi desde cedo a acreditar
que ninguém gosta de quem está sempre a perguntar
"mas ainda gostas de mim?"

O que dói a insegurança,
a falta de confiança
e a necessidade de mudar.
O que dói são as piadas,
as calorias contadas
e aquelas que não se contam
quando como por frustração.
Se o arrependimento matasse
eu já só seria canção que passa na rádio
uma vez por ano, numa só estação.

Há uns dias comprei um corretor de olheiras
por conselho de uma amiga que o usava
para esconder as memórias das bebedeiras
e eu que só queria esconder o cansaço,
a pressão
e a negra extensão que enquadra o meu olhar
no de mulher desesperada que precisa urgentemente de descansar."








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