Não Digo Adeus
Lembro-me do dia em que ela nasceu, como se tivesse acontecido ontem.
Eu e a minha esposa idealizamo-la com a força de duas almas solitárias que esperavam a salvação. Sonhamos com os seus olhos, com o sorriso e com a gargalhada tímida com que nos presenteou sempre. A verdade é que tínhamos planos de ter filhos antes, mas por descuido da vida, isso nunca aconteceu. Numa perspetiva nua, crua e real de um homem acabado se sair e casa dos pais, o que me assaltava o pensamento era a dúvida porque nunca pensei que estaria realmente preparado para ser pai. Mas a vida deu-me a Mariana e as dúvidas calaram-se para lhe dar espaço. A minha filha sempre foi uma criança muito tímida e pacata, muito reservada. Lembro-me do primeiro dia de aulas, saiu de casa nervosa e inquieta, gritava do banco de trás que estava mal disposta numa tentativa de escapar ao seu medo. Vi o contraste com a atitude que me dava de manhã, quando a fui buscar ao fim do dia e a vi correr para os meus braços, com um sorriso rasgado e o rabo de cavalo descaído. Contou-me, pelo caminho, que tinha feito uma amiga, o que não sabíamos era que aquela "amiguita" de primeiro dia, viria a ser a sua melhor amiga de todos os dias. A Mariana nunca foi de ter muitos amigos, mas era uma boa comunicadora, tal qual a mãe. Falava bem e sabia do que falava, era interessada e preocupada com todas as pessoas à sua volta, com a família, com os seus amigos, professores e até mesmo com o namorado.
Feitio da mãe, cara do pai, mas a inteligência era cópia do avô, era uma boa aluna, tinha a capacidade invejável do meu pai de passar dias inteiros a estudar e ler. Tinham o mesmo discurso, diziam que os livros e a música eram os seus melhores amigos, que eram melhores do que as pessoas e que não davam tantas dores de cabeça.
Mas tudo mudou no dia em que eu e a mãe dela lhe comunicamos que tinhamos tomado a decisão de acabar o nosso casamento, ela nunca aceitou essa decisão e sei que, nesse exato dia, morreu uma grande parte e suporte da sua vida.
O que é que eu fiz? Não falei com ela nem tão pouco disse que seria o melhor para todos, mudei-me para outro país e nunca voltámos a falar, mas todos os dias pensava nela e em como teria crescido, como ela estaria agora, o que estaria a fazer ou a pensar.
Fui burro e egoísta, mas pensei, do fundo do meu coração, que seria o melhor para todos nós.
Estava errado, mais uma vez.
O meu maior erro foi dar a estabilidade dela como um bem garantido, nunca duvidei de que ela era feliz, de que ela estava bem, no entanto, estávamos todos errados e, todos os dias lamento a minha ausência e a minha indiferença.
O meu maior erro foi dar a estabilidade dela como um bem garantido, nunca duvidei de que ela era feliz, de que ela estava bem, no entanto, estávamos todos errados e, todos os dias lamento a minha ausência e a minha indiferença.
Eu não estava lá para cuidar dela, para perceber o que estava a acontecer tão silenciosamente.
Era setembro e na minha cidade o frio lá fora congestionava toda a minha vida, mas nesse mesmo dia decidi sair e ir ao supermercado para comprar algumas coisas que eram necessárias cá em casa.
Era setembro e na minha cidade o frio lá fora congestionava toda a minha vida, mas nesse mesmo dia decidi sair e ir ao supermercado para comprar algumas coisas que eram necessárias cá em casa.
O meu telemóvel estava no meu bolso.
Recebi um telefonema da minha ex-mulher.
Só Deus sabia o quanto eu sentia falta dela e da nossa filha. Mesmo com a separação e todo o processo doloroso, eu nunca a esqueci, não deixei que o amor morresse, não deixei que a voz dela deixasse de ser a minha canção favorita que eu pedia todos os dias a Deus para ouvir, mas daquela vez, eu preferia nunca ter ouvido o que ela tinha para me dizer. Ao contrário de tudo o que pedi a Deus todos os dias, ela não estava a confessar ainda me amar, ou a implorar para eu voltar, nem tão pouco para dizer que me esqueci de alguma coisa em casa. A voz saía de uma forma pesada, custosa, dolorosa, chorava com todas as forças e com o ar que enchia os seus pulmões, chorava compulsivamente.
A Minha filha tinha morrido.
Toda a minha vontade de viver morrera com ela, com aquele telefonema que me trouxe de volta todas as âncoras que me mantinham acordado á noite, todo o sentimento de culpa, todo o arrependimento, toda a saudade que nunca poderia saciar.
O choro era uma constante na minha vida, mas como naquele momento, nunca, jamais. As lágrimas vinham acompanhadas do pensamento de que nunca me despedi, de que nunca lhe disse adeus e agora a vida estava a forçar-me fazê-lo de uma forma drástica e permanente.
Ela era muito mais forte do que pensávamos. Disse-lhe uma vez que "segurar as nossas lágrimas corta e prefura o nosso coração muito mais que qualquer faca", mas nunca pensei que ela levasse este "discurso" a sério, nunca pensei que a minha borboleta livre e independente fosse regir a sua vida através de um conselho dado por um gigante marrento que nada sabia sobre a vida, mas desta vez estava certo, só e apenas quando rezava para não o estar. Todos os cortes no seu coração foram cravados pelas lágrimas que escondera e engolira, pelos momentos em que se deixou cair para segurar todas as pessoas á sua volta, criou e ergueu muros que ruiram e só a levaram e feriram a ela.
A saudade cegara todas as recordações que tinha com ela, tudo o que me vinha á memória era o dia em que eu parti e a deixei sem ao menos dizer adeus.
Ela era muito mais forte do que pensávamos. Disse-lhe uma vez que "segurar as nossas lágrimas corta e prefura o nosso coração muito mais que qualquer faca", mas nunca pensei que ela levasse este "discurso" a sério, nunca pensei que a minha borboleta livre e independente fosse regir a sua vida através de um conselho dado por um gigante marrento que nada sabia sobre a vida, mas desta vez estava certo, só e apenas quando rezava para não o estar. Todos os cortes no seu coração foram cravados pelas lágrimas que escondera e engolira, pelos momentos em que se deixou cair para segurar todas as pessoas á sua volta, criou e ergueu muros que ruiram e só a levaram e feriram a ela.
A saudade cegara todas as recordações que tinha com ela, tudo o que me vinha á memória era o dia em que eu parti e a deixei sem ao menos dizer adeus.
No fundo, eu sei que ela nunca me perdoaria, mas todas as minhas atitudes foram tomadas com o pensamento de que ela seria mais feliz sem mim. Percebi tarde demais que os pais deram a vida aos filhos, eles esperam que cuidemos deles, que lhes ensinemos o significado de segurança, amor e lar. Eu fui incapaz de o fazer, falhei como pai, como marido, como amigo, mas acima de tudo, como ser humano.
A beleza dela era angelical, era-lhe desconhecida, queria poder dizer-lhe que de todas as almas que já conheci a dela era a mais pura, mais forte e bonita, mas era tarde demais, era impossível e o facto de o ser tornava-o ainda mais doloroso.
A beleza dela era angelical, era-lhe desconhecida, queria poder dizer-lhe que de todas as almas que já conheci a dela era a mais pura, mais forte e bonita, mas era tarde demais, era impossível e o facto de o ser tornava-o ainda mais doloroso.
A Minha menina tinha ido embora, e nunca me perdoaria pelo que lhe fiz.
"Querida filha, vou reencontrar-te em breve e amar-te para sempre. Agora rezo para que, quer estejas onde estiveres, me consigas perdoar pelo facto de eu não te ter demostrado o quanto te amava enquanto podia, enquanto tu ainda estavas viva e tão mais perto de mim do que estás agora."
"Querida filha, vou reencontrar-te em breve e amar-te para sempre. Agora rezo para que, quer estejas onde estiveres, me consigas perdoar pelo facto de eu não te ter demostrado o quanto te amava enquanto podia, enquanto tu ainda estavas viva e tão mais perto de mim do que estás agora."



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