Olha-me nos olhos e não me deixes ir


                De todas as situações pelas quais já passei esta foi decerto a mais contraditória que me poderia acontecer. Sempre fui fiel a que o amor á primeira vista acontece, mas não comigo. Era isso que estava a dizer quando os meus olhos encontraram os dele. Era como se o Passado se esquecesse de me assombrar e o futuro de aparecer. Menti-lhe ao dizer que não o reconhecia, enquanto o meu coração, petrificado por uma situação pela qual nunca dera o tempo, gritava pela verdade.
                Poderei eu no futuro lembrar-me desta situação com humor ou com nostalgia? Serei eu a mesma daqui a 20 anos? Com os mesmos medos, assombrações, olhares subliminares apenas correspondidos pelo lado fraco da equação?
                Somos ondas de um mar invisível, somos amados pelo desamor, somos amaldiçoados pelo amor e as suas brincadeiras do toca e foge que ao fugir nos tocam mais do que facas afiadas e cortantes.
                Poderia contar-lhe mas a sede de guardar este segredo é maior até porque não me parece justo começar um fogo com uma chama, nem uma tempestade com uma gota. Não escrevo sobre o amor, escrevo sobre a ausência ou dúvida dele, não escrevo sobre o amor porque não acontece em 10 dias.

                Não sou escritora, sou fingidora da dor do amor. Não sou escritora, sou pintora das almas incolores. Não sofro pelo amor, apenas pela sua ausência. Mas neste caso sofro pela ausência de um olhar que nunca fora relatado ou sentido em outro coração, expoente máximo da equação igualada a zero.
                Somos tão fracos, somos tão fortes por sermos fracos. Somos o contaste de nós mesmos e eu detesto isso, detesto sentir-me incapaz, detesto este sentimento de inutilidade, detesto este labirinto incompreendido, detesto o silêncio que se faz quando mudo algo em mim. Será o meu cabelo aquilo que retira a seriedade do meu rosto? Será o meu corpo que me retira a beleza, aos olhos de uma sociedade que me rotula diariamente? Detesto ser feita de “sei lá”, detesto a dúvida que aprendemos, com o tempo.
                Mas Serei eu suficiente? Será o mundo suficiente para ser chamado de lar? 
-Sei lá   

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