Voltar Atrás Para Seguir Em Frente
Enquanto, dentro de mim, acontecia um colossal
debate, os meus olhos procuravam a paz junto aos dele. Aqueles olhos castanhos,
que antes eram banhados a simpatia e afeto, procuravam agora respostas em mim.
Estava frio, onde eu estava, mas a sua
presença jamais deixaria o meu corpo arrefecer. O meu coração batia num corpo
longe do meu e perto do dele, perto dos abraços e palavras que em tempos eu
chamei de "Lar".
Debatia-me
em como o ser humano consegue ser tão pouco egoísta nas situações em que
mais o devia ser, em como, mesmo estando dividida em partículas tão frágeis e
pequenas, eu acabaria sempre por encontrar e chamar "Lar" á pessoa
que me multiplicou em pequenas pedaços de lúcida realidade.
Não sei se era dezembro, janeiro ou
fevereiro, sei apenas que os olhos dele gritavam por ajuda á única pessoa que
nunca o conseguiria ajudar: Eu. Ele estava sentado, desconfortavelmente, na
cadeira e a cada 5 minutos mudava a forma em como posicionava as mãos, os pés
ou as pernas, como se pretendesse mostrar que, com o tempo em que as nossas
vidas seguiam caminhos distintos e longínquos, ele mudara. Evitava o contacto
visual, pois dizia que os olhos eram o espelho da sua alma e a vulnerabilidade
era, acredito ainda o ser, a sua maior fraqueza e os seus olhos nunca mentiriam
acerca disso.
O café era amargo, tal como o ambiente e a
conversa entre nós. O tempo mudou duas almas que se conheceram em tempos mas
que agora se desconhecem por completo.
Costumava pensar em como era bom voltar
atrás, voltar a tudo aquilo que vivemos, mas para isso teria de abandonar quem
sou hoje e tudo o que aprendi e conquistei com a dor, com a "chuva"
que me ajudou a crescer e a valorizar as minhas emoções.
Absorvida com os meus pensamentos,
esqueci-me de que continuava lá, a olhar fixamente para mim a aguardar as
respostas ás perguntas que eu não ouvira e ás quais eu nunca saberia responder.
Desculpei-me pelo sucedido, levantei-me e
deixei aquele café perto da casa a que agora chamava de minha.
Parei a meio do
caminho de volta e sorri.
Precisei de voltar ao passado para saber o
quanto estou melhor agora, pois ao fim do dia as lágrimas, a dor e a ansiedade
são passado, algo que me pertence mas não algo que me define.
Não mais,
jamais.



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