Renascer das cinzas


Bati a porta.
Deixava agora para trás aquilo que em tempos não me levou para a frente, aquilo que fazia de mim escrava de algo que não possuía.
Tentei caminhar mas o cansaço não deixava.
Escolhi ir de carro, a maneira mais fácil de chegar onde eu pretendia, a maneira mais rápida de fugir á realidade, mas como poderia eu fugir dela se estava em todo o lado?
Tentei o impossível, tentei esquecer, perdoar, tentei deslembrar-me de mim, mas deparei-me com a pior faceta da realidade: o reflexo. Como poderia eu querer perder-me se já me perdera há tanto tempo? Como poderia eu voltar a recuperar-me ?
Respostas claras para perguntas que me tanto assombravam.
Eu nunca voltaria a ser a mesma, nunca voltaria a encontrar-me porque somos feitos de momentos, memórias, pessoas, somos feitos de perdas e por mais dura que a realidade seja, eu nunca poderia encontrar a parte de mim que se fartou de sofrer e que implorava por liberdade e Independência a cada recaída e choro. Eu teria de me reerguer das cinzas e formar-me de novo, tinha de me reinventar, tinha de me conhecer.

Abandonar as quatros paredes que eu pensava em tempos serem o meu lar, foi sem dúvida o sentimento mais agridoce e cruel do mundo. Estaria eu livre? Estaria eu sem segurança?
Pensamentos conturbados que ondulavam com o vento que seduzia o meu cabelo enquanto conduzia para mais longe possível de todo o medo.
Estava a fazer aquela viagem que sempre quis fazer e que nunca tive coragem, sempre fui tão agarrada á terra e á ilusória segurança que nunca me permiti conhecer a aventura e a adrenalina. Como pude eu deixar esta experiência acontecer tão tarde e no entanto deixar toda a dor atingir-me tão cedo?
Sou a música que nunca toca na rádio, o lápis branco, sou multiplicada por 0 em todas as equações.
Sou fugitiva da realidade e vítima da verdade.
Sou a melodia de uma canção que nunca chegou a ser ouvida, a canção órfã de letra. Se eu conseguir escrever uma letra, uma descrição pura, nua e crua de mim mesma, então serei a música que toca na rádio. O lápis preto, o batom vermelho, o vestido de verão, a liberdade de todos aqueles que se sentem presos, serei também a voz dos que preferem sofrer em silêncio.
Estou á espera. Não de me encontrar, mas de me conhecer.       

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