A nossa carta
Querido ex-amante,
De onde vivo, vejo, todas as manhãs, pessoas que, com pressa
correm, carros com pessoas singulares que contrastam com a imensidão da pluralidade
da cidade que os acolhe.
Ontem, liguei-te.
Não me atendeste nem tão pouco me surpreendeste com a tua atitude.
Fomos ambos destroçados em pedaços por aquilo que jurávamos ser
para sempre a nossa fonte de felicidade.
Não devolveste a chamada.
Pergunto-me se te perguntas por mim, se te perguntas pelo
tempo que perdemos juntos, um com o outro, o tempo em que pensávamos estar a
ganhar quando estávamos apenas a perder, o amor, a nossa maior descoberta.
Lembrei-me de ti, enquanto andava pelas ruas desconhecidas
do meu novo “lar”.
Lembrei-me de ti por esse mesmo motivo, por me seres
desconhecido e porque em tempos eras tu o meu lar. Os teus braços eram casa,
eram conforto, eram o sol que eu procurava quando dentro de mim existia uma
colossal batalha. Achava eu que era independente quando de repente fiquei
dependente de ti, das tuas palavras e ações que eu chamava de puras e criadas
por Deus. Eras a nicotina que me roubava a lucidez, eras tu.
Escrevo-te enquanto bebo café, mais uma das imensas memórias
que tenho de ti.
Não gosto de café.
Também não gosto de ti, amei-te em tempos apenas, tempos que
nunca mais voltarão, tempos que foram por mim subestimados e planeados como
eternidade.
Ingenuidade a minha.
Não escrevo cartas, escrevo-me.
Não escrevo o que sinto, escrevo o que sou e do que sou
feita, amor.
Prefiro não me despedir de ti. Prefiro aguardar com o
pensamento de um reencontro entre dois seres que nada mais têm do que a
esperança de que o amor chegue para ficar.
Desejo-te o mundo, tal como ele é.
Da tua eterna saudade,
M.
Escrito por: Mia Filipe



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