O azar da sorte de ser mulher



  Fortificadas por uma desigualdade que tentamos combater diariamente, ano após ano, dia após dia, ser mulher é o azar da sorte de o sermos. Ser mulher é sermos capazes de lutar pluralmente num país e numa sociedade tão singulares.
   Porque temos, então, de ser tão sacrificadas e denegridas? Somos vistas como objetos influenciáveis pela sociedade que nos pinta, como se numa tela, de cores imcompreensíveis e lamentáveis de serem pintadas em obras primas como nós, Mulheres.
   A desigualdade salarial, social e os colossais temas em que a Mulher é ainda inferior ao homem fazem de nós uma sociedade pobre de espírito num país rico em cultura.
   Nasci mulher.
Nasci de uma mulher, de um modelo que tento seguir, com valores que tento não perder numa sociedade perdida e uma voz que não quero calar, que não quero sossegar, uma fome insaciável de justiça e igualdade que quero alimentar.
   Dizem que os jovens são o futuro do nosso país, do nosso mundo, mas como podemos nós cultivar uma sociedade baseada na desigualdade e desinteresse pela maioria que grita por justiça e igualdade que ninguém se esforça por escutar? Como podemos nós formar Mulheres com valores e justas quando sofrem uma das maiores injustiças? Como podemos nós dizer ás crianças que estão seguras quando a sociedade insiste em rebaixar as criadoras de vida, as Mulheres?
   Falam na imensidão de tempo que existe para corrigir erros sem pensar no tempo em que as Mulheres se sentem intemporais na indiferença e na diferença de não serem iguais, em direitos e esteriótipos. Esquecem-se, então, que o tempo paralisado de qualquer ato para fortificar uma igualdade escassa é, para as Mulheres, um tempo lento que mesmo nos magoando e injustiçando, nos fortifica, que nos une, que nos faz pensar no quão fortes somos, que nos lembra que não temos de provar ao mundo o que somos, que nos faz lutar cada vez mais, geração após geração.
   Quero ser mãe, mas não quero que o bebé, caso nasça do sexo feminino, seja influenciável pela sociedade em que vive, acredite que não é capaz, se sinta injustiçada. Quero igualdade, para mim, para a minha mãe, para minha avó, para a minha bisavó, para todas as Mulheres que nasceram e que haverão de nascer, para todos. Quero recuperar a vontade de viver em sociedade sem pensar o quão dificil é ser mulher, sem me sentir inferior.
   Nasci um milagre.
   Nasci Mulher, sem nunca querer ser um Homem devido aos seus direitos.
   Nasci mulher para não calar esta voz que grita por igualdade entre homens e mulheres.
   Nasci para ajudar vozes caladas a fazer o barulho e justiça que merecemos.
   Nós Mulheres não queremos ter mais previlégios que os Homens, queremos a possibilidade de usufruir dos direitos, e dos consequentes deveres, atribuídos aos Homens desde sempre pois desde sempre lutamos, sem desistir.
   Façamos então justiça, não pelas Mulheres, mas por todos nós, pelas Pessoas que haverão, ainda, de nascer, pelo mundo criado para o cultivo da igualdade em que agora se cultiva apenas a indiferença e o desinteresse.
 

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