Querido futuro eu,
Escrevo-te agora, em momento de aflição sobre a morte da minha alma.
Pergunto-me, em momentos como este, como podemos nós sofrer tanto? Como podemos suportar a rotina de chorar para que a noite passe? Como podemos nós, sentirmo-nos tão culpados? Sentirmos que não pertencemos a este mundo, que é tão plural, mas que singularmente não me socorre nesta dor e nos meus dilemas e aflições, e que aflições as minhas!
  Mas é dentro do peito que arde uma chama incendiada de culpa e insegurança que espero que já tenhas extinguido, que já não te queime e já não te deixe marcas constantes, que já não te faça chorar. E o medo de não pertencer cá, e o medo de que este medo nunca passe, é a força escassa que, às vezes, aparece só para lembrar que existe e que existem chamas que nunca se apagam, chamas em que vale a pena se queimar, que valem a pena as queimaduras que deixam gravadas em nós.
Sobre este sentimento de solidão, digo-te apenas que é incurável, a fragilidade de ver todas estas pessoas á minha volta que me dizem para parar e lembrar-me que sou feita de vitórias, que tudo há-de passar, pessoas que só sabem o meu nome mas não me sabem, e outras que nem se apercebem do desejo que trago.
 Que futuro tão incerto este o meu, que presente sentimento de culpa, raiva e crueldade que vive em mim. Como se fosse, eu, a escuridão da noite que corre com pressa para o amanhã.
Espero que tenhas encontrado todas as partes de ti que perco diariamente, e por isso peço perdão, que te tenhas reconstruído e reerguido das cinzas que não finjas mais estar bem quando, dentro de ti existem colossais batalhas que desmoronam o teu brilho.
Tem sido difícil, não o nego, têm sido dias sombrios e solitários, tudo por causa deste reverberante sentimento que não me larga, que me magoa como facas afiadas que penetram a minha pele e fazem de mim sua escrava, este sentimento que mesmo não se podendo ver é tão visível em mim, está tão presente. Não sou mais eu, não o consigo ser, com todo este peso que trago, com todos estes momentos que caracterizam a dor e que me matam lentamente. E o tempo cura tudo? Mas de quanto mais tempo preciso para me livrar deste sentimento carregado e pesado que não morre, mas que me mata todos os dias, o que faço eu para que pare, como faço eu para esperar por um tempo que não vem? Deixo-me aqui na sombra do que aparento ser e não consigo sair, não consigo deixar transparecer tudo o que sinto, só o consigo escrever, só o consigo dar às palavras, que são o sangue que ainda corre nas minhas veias, enquanto as salgadas gotas de solidão e nostalgia caiem da minha face e me relembram que sou escrava delas, cliente e usufruidora assídua e quase diária.
Deixo-me aqui onde a dor de não ser é maior do que tudo, deixo-me aqui afundada em dúvidas, nesta morte lenta do não ser e do parecer ser, do apenas sobreviver.


Querido futuro eu, escrevo-te esta carta a implorar para te cuidares para não ficares, também escrava, deste sentimento e desta dor que não sei como descrever sem ser com as palavras “constante” e “doloroso”, desta voz que mesmo que calada implora por ajuda. Cuida do tempo valioso que tens, cuida da paciência e do dom da espera, para que um dia possamos ser livres de remorsos, para que um dia este sentimento seja apenas descrito numa só carta, seja só uma dor que não nos pertence ou nos define mais, jamais.
Querido futuro eu, rezo-te para que te encontres, te descubras e não faças dos outros o teu lar, tal como eu fiz e sou agora sem abrigo, sem lugar nos corações que me rodeiam, nas almas que diziam não abandonar a minha. Sê o teu próprio lar e nunca pares de te descobrir, tenho em ti toda a minha confiança, para que não tenha que passar por tudo isto, outra vez. És a minha única esperança, no tempo que não passa nem faz esta dor passar.
Da tua parte perdida,
Mia

Comentários

  1. Não tenho palavras para descrever o quão maravilhoso é este blog! É sem dúvida alguma o melhor blog que eu já vi! A autora transmite um sentimento tão puro, tão sentimental, tão real,... simplesmente INCRÍVEL!!! Mia, a sensibilidade das tuas palavras permite-nos ficar a conhecer um pouco do teu mundo. E a coragem necessária para alguém exprimir os seus sentimentos é enorme! Mas tu tem-la! Nunca desistas do teu trabalho e nunca deixes alguém convencer-te de que não és fantástica! Porque tu realmente és! E este blog é a prova disso! Lembra-te... nós nunca caminhamos sozinhos. Há sempre alguém do nosso lado, se soubermos ver bem! Continua a marchar em direção ao amanhã, pois dou-te a certeza de que ele será glorioso para ti!

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    1. Obrigada por todas estas palavras que me comoveram imenso pois como todos nós, diambulantes humanos, temos fraquezas e momentos em que duvidamos Das nossas Capacidade.

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