Lisboa, 21 de março de 1943



Saúdo-vos, agora, meu senhor, meu amo, eterno guardião desse meu coração, que bate tão longe de mim, mas que me mantém viva. Pedistes-me, na última carta que me escrevestes, que vos contasse a coisa mais bonita que alguma vez vira e é isso que vos segredo.
As almas, senhor, são elas que me prendem o olhar, que deambulam neste mundo como seres perdidos, sem conhecerem a vida que têm em si. A vossa alma, meu amor, conspira com a minha, segredam-se promessas inaudivelmente barulhentas.
Pergunto-me se vos estareis perguntando, ao ler esta carta, como conseguirei eu ver almas, mas garanto-vos, eu, que as vejo.
Vejo-as com os meus olhos, nos olhos dos outros, é lá que se mostram, que se despem da invisibilidade, é lá que moram. Os olhos não mentem, nunca, jamais, vos prometo, e se olhardes os meus vereis que vos amo, todos os dias, da forma mais sincera que podereis imaginar. São eles o espelho da alma, o fogo que arde em nós e nos queima, que nos dá a oportunidade de criarmos labaredas gigantes e pitorescas com outras almas.




São elas que nos conferem a idade, a identidade, que nos dão a vida, que nos dão o tempo.
O que seriamos nós sem almas? Corpos deambulantes e sem vida, todos iguais, todos com os mesmos princípios, todos com o mesmo pensar, escreveríamos todos sobre o mesmo sentimento, usaríamos as mesmas palavras, diríamos e escreveríamos tudo, da mesma forma. Se assim fosse, digo-vos de forma sincera, citando o meu coração que bate aí tão junto a vós, sentiria falta das vossas cartas que me aquecem o coração aqui, numa cidade tão grande, tão fria de tão vazia que me faz sentir, sentiria falta das vossas palavras que pedem tão calorosamente as minhas, sentiria falta da vossa alma que viaja e se mostra nas vossas palavras, que chora num papel amaçado, que sorri com as curvas do vosso nome, curvas essas que me relembram do vosso sorriso, e ai que sorriso o vosso!   
Entristece-me este momento, que mesmo só vos sendo relatado mais tarde, me obriga a despedir e deixar ir este sentimento de vos ter junto a mim, deste curto momento, enquanto escrevo, enquanto as nossas almas se amam. Custa-me a despedida, custa-me fazê-lo com um “até já” sem saber se vos verei tão breve, mas custar-me-ia ainda mais despedir-me com um “adeus”, é uma palavra que ofende, que me magoa. Despeço-me apenas com um beijo, que voará com esta carta, que vos será entregue pela minha alma.
Espero que esta distância que existe entre nós seja breve, meu amor. Um beijo de quem vos ama e sente por vós uma saudade ardente que queima, mesmo não deixando marcas visíveis.
Da, para sempre, vossa,
M.   


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