A ideia de ti


Resende, 19 de Junho de 2020

Sempre que escrevi sobre o amor, escrevi sobre ti, sobre o que me fazias sentir, sobre a dor da tua ausência, mas agora que reapareceste desapareceste do meu coração e da minha mente que ainda choravam por ti, que ainda sangravam quando ouvia o teu nome. Gostaria de mudar o desconforto que sinto quando dizes o meu nome, sinto algo, mas não sinto mesmo. Passados estes anos sem te esquecer, sem te deixar ir, sem me deixar sentir e ser, mas desde que voltaste que tentas quebrar os muros que me salvam todos os dias, os muros que me mantêm sã, que me mantêm fiel a mim mesma, não os deixo desabar como deixei antes de partires, mantenho-os firmes, seguros e inquebráveis, ergui-os para que a minha alma jamais soubesse o que é morrer lentamente.
Agarrei-me a isto, á escrita, como se á minha volta acontecesse um naufrágio e as palavras eram a minha única bóia de salvamento. Na verdade era mesmo assim que me sentia, perdida, sem ar, sem esperança, sentia todo o meu corpo e mente enquanto se afogavam num oceano de mágoa e solidão.


     Moldaste-me de uma forma forçada, ausente de inocência, foi malévolo e prejudicial para mim, para todos aqueles que me conheciam, para todos aqueles que me viram tornar numa pessoa com medos obscuros, com problemas em confiar, uma pessoa que chorava e gastava todas as lágrimas que o corpo detinha, uma pessoa com vergonha de demonstrar sentimentos e vulnerabilidade. Durante algum tempo pensei que era feita da mesma matéria que tu, de uma matéria rochosa que parece inquebrável, vazia, ausente de consciência, de amor, que tudo o que faz é magoar os outros. Por mais tarde que fosse, apercebi-me que não era assim, estava apenas despida de momentos, memórias, estava sozinha, magoada, mas apercebi-me que em mim ainda moravam sentimentos como a alegria, a empatia, sentimentos que pensei que me tivessem sido roubados por ti. Apercebi-me que estava presa ao meu ideal de amor, de romance que construí enquanto lia os livros que agora já não fazem sentido, apercebi-me que não eras tu que me mantinhas acordada durante a noite, era a ideia de ti, a ideia que criei de ti, algo que só eu via, só eu vivia, só eu sentia.
Agora que voltaste sozinho, sem a fotografia que pintei de nós os dois enquanto deixava as minhas experiências literárias e as minhas expectativas dominarem o meu subconsciente, confesso que não sinto o mesmo por ti. Depois que partiste deixaste demasiados espaços em branco que preenchi comigo mesma, com o amor que ainda me restava, com as memórias que foram voltando, que me foram completando e me foram elucidando que só assim faz sentido, que só assim sinto o mesmo que senti por uma ideia de ti, mas sentindo-o agora por mim.  

Comentários

Mensagens populares