É uma carta portuguesa, com certeza


Lisboa, 10 de junho de 2020
Que má fortuna esta a nossa!
Ó gente Lusitana, que cantais agora palavras que nunca me foram conhecidas, dentro das vossas casas, que conheceis agora a herança que vos deixeis, a minha poesia lírica e a minha grandiosa obra épica Os Lusíadas.
Dizem, hoje em dia, nestes dias que correm sozinhos por uma Lisboa que nunca dormia e que nunca conhecera o silêncio, que, hoje é o meu dia, é dia de Portugal, dia do herói da minha maior obra, dia dos Homens que aprenderam a segurar numa mão a pena e noutra a lança, dia daqueles que não desistiram, dia de uma resiliência que só nós conhecemos, dia de palavras como fado e  saudade, palavras nossas, que não conhecem outra língua.


Lamentavelmente, não se ouve o sotaque de um Portugal nas nossas ruas, mas continuamos a esforçar-nos em perigos e guerras, mais do que prometia a força humana, porque há coisas que nunca mudam. Isto digo-vos eu, que já visitei o mundo, que fui sempre condicionado em muito, que vivi com heróis e duvidei da minha heroicidade, da minha real estima. Sofri muito por amor, deixei o meu coração quebrar em prol da escrita e, muitas vezes, permiti-me ser vulnerável, porém, agora, vejo que tudo valeu a pena. Palavras gostaria que houvesse para descrever este sentimento de orgulho que tenho em vós, meus caros seres de sangue lusitano, pois deixastes que o engenho e a arte vos ajudassem, cantastes por toda a parte algo que é tão nosso, criastes e espalhastes arte.
Por vezes, faço estas viagens ao vosso agora e a uma realidade paralela à minha, mas ouço o meu nome, na vossa história, no dia de hoje em que tudo o que ouço é o eco de um esforço tremendo e de dores que muitos de vós tão bem conhecem. Neste dia, aqueço o coração com as vossas memórias e histórias que contam sobre mim, sobre uma realidade minha, que agora é vossa, e que será sempre de um país à beira-mar plantado, de um Portugal que, hoje, mais do que nunca, é enaltecido por aquilo que eu já fiz e por aquilo que muitos de vós ireis fazer, pois não vos esqueceis que Portugal não é um país estático, é um país que carrega um passado e que espera por vós, como esperou por mim. Não é fácil, mas garanto-vos que vale a pena.
     Um abraço que abarca tudo aquilo que já foi nosso e que nos pertence no coração e memória.
                                                                 Luís Vaz de Camões

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