O inferno na terra

Ouvi-te dizer
Que ias partir. 
Mas já eu sabia
Que me tinhas deixado, 
Há tanto tempo. 
E eu que tinha planos para viajar
E para muito viver, 
Fiquei apenas a conhecer
A dor, a mágoa e arte de me perder.
Prometi que não seria escrava do amor
Nem tão pouco sua servidora.
Disse que veria o nascer do sol, 
Apenas, se isso me impedisse 
De nadar contra a maré.
Mas sei nadar, não é? 
Sem me afogar. 
Sei viver, 
Sem vontade de matar. 
Sei perder, 
Só não sei como hei-de, eu, ganhar. 

Conheço perigos, 
E perigosos feitos, 
Mas és de todos eles o maior,
O rei superior, 
Senhor da razão 
Que sofre por ser órfão de paixão. 
E foi por ti, 
Que conheci, eu, 
O inferno na terra. 
E até o pecado amei. 
Aguardo agora morrer
Pará o céu conhecer 
E provar que também sei ter paz, 
Depois de ter vivido
A vida sofrida que levei. 
E por todo o tempo que perdi,
A chorar por quem sorri. 

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