Amor de Agosto

 

Há cicatrizes que
Não foram feitas para sarar,
Que hão de sempre sangrar
Para nos relembrarem de que existem.

O quão bom seria
Se só amar fosse o segredo?
Mentiram quando o disseram,
Referiram o amor, mas omitiram o medo.

Deixei-me levar pela mentira
E ofereci a minha alma como se fosse nada
Quando na realidade entreguei tudo o que tinha,
Desde o meu êxtase à minha calma.

Gostaria que existissem palavras
Que pudessem descrever como é
Olhar ao espelho e perceber
Que ofereceste a alguém tudo aquilo que eras,
Aquilo que tinhas,
Os teus sonhos,
Que tantas vezes planeaste em atrasar ou arruinar;
Tudo o que pensavas,
Todas as noites passadas
A discutir o indiscutível;
Todas as cicatrizes em que voltaste a tocar
 para deixar alguém entrar
Sem saberes que planeavam sair,
Sem saberes no que se tornavam
Quando os vossos pensamentos não se cruzavam,
Quando impunhas a tua palavra,
Quando te mantinhas fiel a ti mesma,
Quando proclamavas liberdade
E te sentias presa, na verdade,
A um amor que nunca o foi,
A sete letras que guardavas secretamente
Para quando aparecesse o tal
E que ofereceste assim
A uma vulgar paixão de verão,
Em agosto,
Que voltou em outubro,
Que se intensificou depressa,
Mas que, também, depressa mudou.

Se dói?
Mais do que o que posso escrever.
Pois para me deixar conhecer
Tive de reviver todo o processo
De autoconhecimento
E sem me aperceber
Voltei à estaca zero
E agora?
Percorro todo o caminho de volta
Sem esquecer o local
Onde me esperam
E do qual já soube de cor


O sabor,

O cheiro,

A sensação de me ter e conhecer.

Por isso, caminho devagar
Para aprender
Tudo aquilo de que me esqueci
Quando me dei a conhecer
E me permiti reviver e reencarnar
Todas as minhas cicatrizes
Que continuam a sangrar.
Mas, no fundo, sou grata
Por saber que o caminho
É mais gratificante
Do que o momento

em que nos apercebemos da chegada.

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