O som da despedida

-Não te queria deixar ir assim - disse-me com os olhos marejados pela saudade da presença, pela saudade do que antes fora nosso, mas que já não era. Nós sabíamo-lo.

-Então não deixes. Não me deixes ir, não me deixes sair daquela porta, sabes que desta vez não voltarei. Não outra vez - queria continuar, mas a voz partia no mesmo compasso que o meu coração. Queria culpar todas as pessoas que me contaram histórias de amor sem nunca mencionarem que a dor é, por vezes, maior do que o amor, sem mencionar as quedas e todas as cicatrizes que ficam e não vão embora nunca, mas sabia que nesta história em particular, só existiam dois culpados e não eram as outras histórias, éramos nós, agora individuais.

-Sabes bem que se pudesse não te deixava ir, se tudo fosse diferente…

-Sei? Sei de quê? Que provas me deste disso que inventaste agora? – eu sabia que estava errada, mas queria convencer-me de que o que dizia era o certo. Sabia, também, que a robustez e dureza com que as palavras saiam da minha boca não era a que eu pretendia, mas sabia que precisava de fingir a vontade de partir até que a vontade realmente aparecesse.

-Dei-te o meu tempo, dei-te o meu amor, dei-te tudo do mim, não consegues ver? Conheceste todas as partes que mais ninguém conhecia, porra! Achas que é fácil para mim…tudo isto? - dizia enquanto gesticulava com as mãos e olhava ao seu redor para conhecer, com os seus olhos, as últimas duas caixas de papelão com letras escritas apressadamente com a caneta permanente que antes era usada apenas para escrever na parte de trás das fotografias - Não foi uma decisão fácil, para nenhum de nós.

-Dizes isso como se tivesse sido uma decisão conjunta - disse ajustando-me contra a parede que já se tornava desconfortável. - Não foi uma decisão minha, não foi uma escolha minha, não me deste sequer a oportunidade de saber as tuas razões, de saber o porquê- não podia mais fingir, eu sabia exatamente as razões dele, eram as mesmas que as minhas eu só não conseguia aceitar que ele tivesse sido mais corajoso do que eu e as verbalizasse. Sabia que era o fim, mas não queria que o fosse, queria ficar ali, como da primeira vez que dormimos naquela casa, sem uma cama, ainda, só nós, deitados sobre uma manta retirada aleatoriamente de uma das caixas da mudança, a olhar a janela, de vez em quando trocando olhares entre as nossas almas. Nesse tempo sabia que estava em casa, mas agora não reconhecia sequer as paredes pálidas que me enclausuravam ali, com um estranho que soube, em tempos, a única poesia que acordava o meu coração.

Num movimento apressado, faço com que as minhas costas já não sejam amparadas pela parede branca que segurava aquela casa, mas que já não segurava um lar. Peguei nas últimas duas caixas e segui para a porta até que senti uma mão, que a minha pele já conhecia, sobre o meu braço e que me fez derrubar as caixas, não sei se pela surpresa do gesto ou se pela eletricidade que fez os meus olhos traçarem o caminho que eu já sabia de cor e que me levava apenas a conhecer os dele. O barulho da queda foi grande, ecoou, mas isso não foi suficiente para quebrar a corrente que unia os olhos dele aos meus.

Deixei que as minhas dúvidas e incertezas se libertassem através das lágrimas que involuntariamente se reproduziam e se faziam visíveis.

- Como é que chegámos a este ponto? Como é que deixámos que isto nos acontecesse? A nós – sussurrei a última parte como numa súplica, como se ainda duvidasse que dentro de minutos, ou talvez horas, eu sairia daquela casa e nada mais me prenderia a ela ...

- Não sei - disse afagando os meus cabelos e levando a minha cabeça ao encontro do seu peito que antes cantava a minha melodia preferida, mas que agora estava desalinhado e cantava num idioma que eu já não entendia. Não me queria permitir abraçar de volta, a gostar do calor da dor, mas o meu corpo não obedeceria ao meu cérebro, era inevitável tentar. Era tudo tão injusto. Como é que a pessoa que te quebra ainda sabe a lar, ainda tem o mesmo efeito, as borboletas que nunca morrem, mas que já não voam alto.

Desprendi-me daquele abraço, daquele corpo que tatuou para sempre, no meu, a silhueta das suas mãos, das correntes elétricas deixadas pelo toque, das chamas que ainda queimavam, mas que já conheciam a direção do vento.

-Cuida de ti, sim? Cuida da casa, das plantas, diz bom dia á Dona Almerinda todos os dias quando a encontrares, sabes que ela gosta muito de ti. Olha, faz assim, dá-lhe o meu número, para continuarmos a falar, dás? – ele acenou e esboçou um pequeno sorriso - Apesar de não me teres dado a oportunidade de também decidir isto – notei que me iria interromper para se justificar, mas acenei para que me deixasse continuar. Ele cedeu e eu confessei – de qualquer das formas eu não teria contestado a tua decisão. Ambos sabemos que isto é o melhor para ambos, sabemos que o nosso fim não será hoje, foi um processo desgastante. Mas agora vamos ter o nosso tempo, para nos reerguermos e continuarmos a olhar em frente- disse-lhe enquanto o olhava nos olhos, ele sabia que o que eu dizia era a verdade, não a minha versão, mas a verdade, era mútuo.

- Parece que afinal de contas, só amar não é o segredo hãm? - disse-me deixando uma gargalhada pequena, curta e quase inaudível sair do seu corpo, como forma de tornar o ambiente mais leve, mas mal sabia ele de que não haveria forma de tornar o nosso caos leve, nunca houve.

E eu não disse nada, não tinha forças que me levassem a fazê-lo. Baixei a cabeça para que a lágrima apressada que corria pela minha cara não me incriminasse. Peguei nas caixas caídas no chão e voltei a olhar a porta com intenções de sair, mas não sem antes, num movimento lento e doloroso, voltar a olhá-lo e lançar-lhe um pequeno sorriso.

Foi ali, naquele último bater da porta, que ficou para sempre tatuado no meu cérebro, que eu soube que nunca tive certezas de nada, foi naquele momento que tentei convencer-me a mim mesma de que ser racional não me teria levado àquela situação, mas de que me serviria a razão se não ouvisse o meu coração que gritava em súplicas audíveis pelo dele? 

Soou ali, mas jamais morreu ali, o bater da porta, o som de despedida.

Por mais que quisesse que a nossa distância fosse demarcada apenas por aquela porta eu sabia que tínhamos inúmeros passadiços de dor, indiferença e mágoa a ocupar o espaço que tínhamos reservado e jurado somente e nada mais que amor.

Ao que parece, nenhum de nós conseguiu cumprir o que prometeu. 




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