Abril

 Era abril. Sem águas mil.

Era abril em todas as janelas com parapeito, mas era, também, abril em todas as janelas sem parapeito. Era abril.

O céu sorria na cor real e invicta. Fazia parecer fácil a plenitude do tempo e da ausência dele. Era imóvel e intemporal, era e sabia-lo. Trazia consigo a sombra da existência, os olhos de quem já partiu e voou mais alto do que pensámos, hoje, ser possível, trazia o mar e a sua calma tendo sempre em mente a possibilidade de poder trazer, também, a sua angústia e inquietação, as suas mágoas e profundidades, os seus mistérios e o desconhecido, a pressa e a queda veloz sem um chão onde cair.

A roupa era quente como uma manhã de verão num dia de inverno, aconchegava o corpo e o coração, a mente e a canção que tocava longe, mas que mesmo assim se fazia ouvir. Era larga, com espaço para mim, para a alma e para todas as outras que se quisessem juntar àquele abraço que tinha tanto de involuntário como de necessário, no grito silencioso de ajuda para reajustar todos os pedaços que já manifestavam a vontade de cair e destruir as paredes daquele muro que ia construindo sabendo que me arriscava a que a solidão e a dor me devorassem pelo interior.
Sabia onde estava, mas não o reconhecia como uma realidade que fosse minha.
Eram pedaços de uma arte nunca antes criada, desperdiçados num quadro nunca antes visto, pendurados na parede branca e rugosa lá de casa, como se fosse o testemunho melancólico e que testemunhava, desmedidamente, a minha descrição num romance escrito na terceira pessoa.

Não era o surreal, mas não era, nem quando de longe se olhava, a realidade que pintava e narrava Frida, nem tão pouco a que Shakespeare escrevia e descrevia com o fogo da sua alma que jamais poderia ser extinto. Eram paredes sufocantes e brancas que nem cal, eram os quadros nas paredes que pintei num verão em que nos mantinham cativos dentro das nossas próprias casas, mas que tomei como desafio e, então, tornei-me, eu, numa prisioneira na minha própria casa, mente e corpo.
Ardia, queimava e magoava que nem o fogo que destruía as palavras que foram escritas, em tempos. Era a loucura da necessidade de sério ser e parecer, era a proximidade angustiante causada pela distância longínqua que tanto nos matava como nos salvou. Era a antítese de tudo o que conhecíamos até então, era o testemunho da verdade que suplantava a mentira e a indiferença em que sempre nos permitimos viver. Era a mudança que chegava sem avisar e que nos feria mais do que os cortes das facas afiadas que nos torturavam com o barulho silencioso á hora de jantar enquanto batia, como numa sinfonia com o garfo,  no prato meio vazio, meio cheio, que ia contrastando com o som já moribundo da televisão que raramente se desligava quer da corrente, quer das más notícias que nos assustavam mais do que monstros e criaturas que se foram instalando debaixo das nossas camas e dentro das nossas cabeças.

Era abril e o mundo estava febril com tudo o que era e que não era, com tudo o que nascia e morria, com tudo o que existia e com tudo o que ia desaparecendo, com todas as verdades que veloz e ferozmente se foram tornando mentiras, com tudo aquilo que nos magoava e nos tatuava dor, mas que durante todo este tempo nos manteve vivos e em segurança.

Não era só abril. Era o fim do mundo tal como antes o conhecêramos.  

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