Quando for pó
Após a negação,
Chegou o tempo de usar a razão.
De nós, demabulantes humanos,
admitirmos a nossa própria estranheza.
Fomos presenteados,
como por surpresa,
com a dádiva de viver.
Ainda assim
vivémos toda a nossa vida
a pensar no momento de morrer.
Mas a questão é:
o que está para lá
do que os olhos podem ver
e o coração sentir?
o que está para lá da terra?
da pele?
do ar que mingua
como a lua que flutua
no Polo oposto
ao corpo exposto
à eternidade?
Se há vida após a morte?
Não o sei,
Fazer-me-ia confusão se houvesse.
Uma vida a mais para viver,
Erros prontos a serem cometidos,
Estranhos com pressa para serem conhecidos
E mais um ciclo de pensamentos
que nos trazem de volta
Ao carrossel para gente grande
Que se pergunta
sobre como e quando
É que o ar falta
e a visão fica escura,
sobre o morrer do movimento
e o nascimento da candura.
De tudo aquilo que não sei,
ou que não quero saber,
o que atormenta o meu viver
é o facto de se conhecer,
e ainda assim se ignorar,
a longevidade do nada,
a eternidade da escuridão parda,
a transparência opaca
da linha tênue
entre o viver e o morrer.
Quando for pó
e pertencer à terra,
quando me dissolver na água tardia
serei planta sadia.
serei eu parte do nada?
a sua filha bastarda?
pó que arde assim
na secura de nem chama ver,
filha do toque
que já não move nem faz mover
que já não sente a terra
que lhe pesa no corpo
sem sequer a poder ver.
Já não. Jamais.
Se houver vida após a morte
Fico à espera de morrer outra vez
para não ter de carregar o peso
de não saber se vivo ou se me deixo sobreviver.
Porque afinal de contas
a terra que me prenderá
às raízes da terra molhada
Será infinitamente mais leve
do que o ar que respiro enquanto viva
Mas que não me acrescenta nada.



Comentários
Enviar um comentário