braços que ainda hoje cheiram a lar
Vi-te partir assim
pálida,
imóvel,
de forma brusca,
dolorosa,
rápida tal qual tempo
assassina, de tão penosa.
vi-te voar,
alto no céu,
alma conhecida,
glorificada,
compasso acelerado
que ninguém cantava,
tão bem quanto tu.
Vi-te
no céu e em tudo o que tinha cor
vi-te na ausência, na dor,
nas lágrimas demoradas
que caiam sem pedir licença
que caiam e negavam a minha crença
de que ias voltar.
Vi-te na melancólica falta de apetite,
na televisão desligada,
no silêncio às refeições,
nas noites e serões
em que te via dançar com o vento.
vi-te na profundidade das feições,
nas covas escuras que seguravam
os olhos marejados
de quem também te perdeu.
Queria ter raiva
de quem disse já
que era o tempo capaz de curar,
de sarar
a dor da tua ausência,
a ferida que sangra sem parar,
que disse que o passar dos dias
iria trazer de novo as alegrias,
de quem disse,
que com o tempo,
de dor a uma memória passarias,
Mas não o consigo fazer.
porque sei que quem o diz
já o ouviu também,
que quem o diz
foi ensinado a assim viver
a contentar-se com a definição vulgar
do nascer e do morrer.
Mas quem o diz,
sabe que a dor não morre
ou adormece,
Sabe que a dor vem e fica,
que magoa devagar
que corta sem marcas visíveis deixar.
Mas quem diz que o tempo
sossega a dor
conhece a infelicidade
de desconhecer as suas últimas palavras
para com aqueles que vão
e não mais voltam,
para com aqueles que não sabiam
que o nosso hoje,
não seria deles, também.
Mas se de algo eu sei,
mesmo sabendo que de pouco sei,
é que as pessoas,
as almas que em tempos nos adormeceram,
que em tempos nos deram colo
e nos seguraram as mãos,
os braços que ainda hoje cheiram a lar,
mesmo que longe e quando há necessidade de divagar,
serão imortais.
E continuam o seu caminho,
com os bolsos carregados de saudades,
com os cabelos grisalhos e intemporais
coloridos com a cor dos sorrisos e memórias.
caminham com o torço
coberto por camisas de tecido
cozido e alinhavado com histórias,
deambulando por ruas aleatórias,
vendo nas vitrinas das lojas por onde passam
pedaços deles que deixaram em nós,
porque eles sabem que são
a saudade no presente,
As histórias do futuro,
As certezas do passado
E amores para a vida toda.



Lindo 😍
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