pronome tão pessoal
E se te perguntasse sobre o teu "Eu",
Aquele de todas as horas?
Aquele que existia sem filtros ou perdões?
Responder-me-ias que por mais que te questionasses como é
Sabias apenas que não o sabias?
Descrevê-lo-ias, quiçá
Como noivo de boatos,
Casado sem véu,
No breu da noite.
Dirias que era o culpado de todos os teus erros,
E, talvez, a razão de todas as tuas quedas,
E perdas.
Ficarias desconfortável e com a boca seca,
Corrigirias a postura e ajeitavas a cadeira,
mas continuarias o teu raciocínio desalinhado.
Acrescentarias, também, que era o culpado das tuas vitórias,
e aí apareceria um ligeiro sorriso
que indicava que não te esquecias, jamais, do caminho.
Esperarias aproximadamente trinta segundos para te recompores
Dos danos causados
por esta minha pergunta indiscreta.
"A minha própria companhia nesta viagem,
Para sempre"
Dirias em voz baixa com medo de que pensasse
que era uma resposta romantizada,
querendo, ao mesmo tempo, que o fosse.
Ficarias nostálgico e pensativo e,
como sempre,
apoiarias a cabeça numa só mão,
a esquerda, por preferência
e dirias, então, mais confiante
que o teu "Eu" era a tua alma de poeta
Que mesmo sem caneta
Saberia onde o esperavam e por onde era o caminho.
Dirias algo muito interessante e profundo,
para acabares a conversa como acabavas os teus poemas,
usarias trocadilhos com gramática
e eu provavelmente riria de nervoso porque não os entenderia.
Referirias o facto de "Eu" ser uma palavra singular,
mas de o quereres converter numa vitrine de pessoas
que te ajudaram a construir,
Ao longo destes anos, a tua estrutura sólida e viva,
pessoas de carne e osso, tão humanas quanto tu.
E aí,
E somente aí,
Dirias que só assim é que a palavra “eu” faria sentido,
Quando dita no singular,
Relembrando sempre
O verdadeiro significado plural
Deste pronome tão pessoal.
De nada tenho a certeza, mas acredito que seria assim, se pudesses falar comigo uma última vez, antes da vida te levar para longe de mim.



Comentários
Enviar um comentário