Camila

 Chegaste a casa mais cedo. 

As coisas têm estado difíceis desde a morte do teu pai, mas já se passaram cinco anos e sei que parece egoísta querer-te de volta, querer que esqueças a tua dor e que consoles a minha, querer-te por inteiro mesmo sabendo que, parte de ti partiu, também, há já cinco anos.  
Sei que soa e é egoísta da minha parte querer que me ames como amavas ou que te lembres do brilho dos meus olhos sempre que pensas em mim, sei que é errado querer que penses em mim a todo o instante quando a tua cabeça está preenchida com todos os demónios que sabias de cor e que me contavas que te assustavam quando começamos a namorar. 
Lembras-te desses tempos?  

Lembro-me do nosso primeiro encontro. 
Demorei duas horas a escolher uma roupa e mesmo assim não o consegui fazer sozinha, tive de ligar à Carla a pedir uma opinião, mas perdi-me quando ela me perguntou "para que ocasião é a roupa?". 
Lembro-me de lhe dizer, num tom tímido, que ia sair contigo e ela riu-se do outro lado do telefone, um riso abafado que veio acompanhado de um "isso está a ficar mesmo sério, Camila" e mal ela sabia o quão sério tudo isto estava a ficar, mal ela sabia o quanto era amor tudo isto que eu escondia e disfarçava com um sorriso e “com o tempo, quem sabe?”. 
Lembras-te do meu vestido vermelho? Aquele que não era muito curto, mas que também não era conservador em demasia? 

Lembras-te de como me cumprimentaste? 

    Às vezes gostava de não me lembrar tão vividamente destes momentos, gostava de não me conseguir lembrar do sabor do teu beijo e do desalento que trazia o teu toque, que traziam os teus pequenos gestos, gostava de não me conseguir lembrar das tuas palavras doces que me faziam esquecer até o meu próprio nome, gostava de não me lembrar de quem eras e de como éramos, nós, quando ainda éramos alguma coisa, quando ainda chegavas do trabalho e ligavas o rádio, na mesma estação todos os dias que religiosamente, às 19:00, tocava Elvis. 
Puxavas-me pela cintura enquanto eu fazia o jantar, tiravas-me a colher da mão e pousava-la delicadamente para não sujar a cozinha enquanto balançavas o meu corpo como se fosse parte do teu. E eu, às vezes, coberta de farinha, escondia a cabeça no teu pescoço para que não me visses assim, mas tu, com as tuas mãos sempre quentes seguravas o meu queixo para que os meus olhos encontrassem os teus, acompanhavas os fios de cabelo soltos, que se colavam à minha testa com o suor de toda esta dança frenética à volta da cozinha, e dizias baixinho que me amavas, sorrias e continuavas a cantar a música que dava na rádio como se nada se passasse, porque amarmo-nos desta forma era natural, não era forçado nem imposto, não era raro nem sobrenatural, era nosso, era o nosso silencioso para sempre que sabíamos que iria durar até que os nossos corações parassem de bater. 
Porque tu sabias que eras tu, que sempre foste tu, desde a primeira vez que te vi soube que o meu coração era teu, desde a primeira vez que encostei os meus lábios aos teus soube que todas as minhas palavras seriam para sempre tuas. 
    Eu era tua e não havia nunca maneira de o negar.  

    E é por te amar desta forma tão natural e minha que preferia não me lembrar de como fomos, talvez assim esta tua presença ausente não doesse tanto, talvez não custasse tanto ter de me despedir todos os dias da esperança de que voltes a ser meu da mesma forma que sou tua, até ao dia de hoje, talvez assim não me custasse tanto ter de partir o meu próprio coração como se fosse uma promessa vazia daquelas que fazemos quando somos crianças e nada sabemos sobre a vida. 

Faz hoje cinco anos que o teu pai partiu, faz hoje cinco anos que o teu pai mora connosco: no silêncio às refeições, na monotonia dos dias, na saudade imensa, na distância entre quem eras e quem és. Não te culpo por nada do que está a acontecer, precisas do teu tempo para te acostumares à saudade e a uma nova forma de viver, precisas de espaço e silêncio para poderes embalar essa tua mente barulhenta. 

Mas ai, que saudades tenho em adormecer no teu colo a ver um filme, dos serões, saudades de poder viver no teu abraço, de poder respirar o mesmo ar que tu sem ter de pedir licença. 
 
Tenho saudades de ti. 

Hoje, chegaste mais cedo. 

Pousaste as chaves na mesa da cozinha e não me dirigiste sequer uma palavra. 

Viraste costas. 

Sentaste-te no sofá e ligaste a televisão. 

Disseste baixinho, para ti, como se fosse um lembrete "às 20:00 joga o Benfica". 
Era o clube do teu pai. 
Tu sempre foste do Sporting, a tua mãe do Porto. 
Há cinco anos que só vês jogos do Benfica, de nenhum outro clube, num volume quase nulo. 

Acabou o jogo. 
Desligaste a televisão e vieste para a cama. 

Não me desejaste boa noite. 

Não é surpresa nenhuma, tem sido sempre assim. 

Também me vim deitar depois da novela, mas acordei há pouco para te escrever isto, mesmo sabendo que nunca o vais ler, nem que deixasse esta carta em cima da mesa ou presa num íman no frigorífico, não te preocupas o suficiente para isso, a tua atenção já não se prende com qualquer coisa. 

Há cinco anos que durmo sem saber se o amanha te vai trazer de volta, há cinco anos que a nossa relação não vive, mas sobrevive. 

Há cinco anos que sei que te amo, mas há cinco anos que duvido se isso é o suficiente. 

Sou egoísta, culpa-me por isso. 
Culpa-me por te querer mais do que a minha própria vida. 
Culpa-me por te respirar. 
Culpa-me por precisar de ti tal qual preciso de ar. E assim, há cinco anos que vivo de pequenos suspiros e sopros. 

Culpa-me. 
Diz que já não me amas. 
Diz-me alguma coisa, nem que seja o que eu não quero ouvir, nem que seja para me partires o coração como juraste nunca o fazer naquela noite fria de Outubro, na noite que trazia os meus 18 anos, a noite em que te jurei ser para sempre tua, a noite em que nos juramos amor.  

Culpa-me e desculpa-me os dramas, o excesso da necessidade de contacto físico, desculpa o exagero de energia todas as manhãs, desculpa-me a forma exacerbada em como me preocupo, desculpa-me por ser e por querer que sejas, também. 

Desculpa-me o egoísmo de te querer. 




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