Mãos frias de saudade

 Esqueço-me muitas vezes de que já não estás aqui, porque ainda te sinto cá. 

Cumprimento toda a gente e na minha cabeça há sempre mais uma pessoa para cumprimentar, 

há sempre um beijinho na testa que falta, 

há sempre a falta do toque e das mãos (sempre) frias, 

há sempre a saudade da palavra amiga que já não pode ser ouvida, 

há sempre o silêncio confortável que agora se materializou num vazio, apenas, que se materializou na falta de ti, nas saudades e na ânsia (e esperança) de um dia te poder contar tudo, de te poder contar todos os segundos desde que nos deixaste, desde o momento em que te perdi para uma luta injusta, unilateral, para uma luta que nem tempo tiveste de ganhar. 

Foste apanhada de surpresa. 

Fomos todos. 

E contigo, naquele dia, naquele instante, partimos todos, ficamos todos com um vazio que preenche cada passo nosso, cada compasso dos nossos corações, cada respiração profunda, cada noite mal dormida. 

Não sei se acredito em vida após a morte, 

não sei se acredito no "depois", 

mas mesmo não sabendo de nada continuo a escrever-te, 

continuo a falar contigo, 

continuo a chorar contigo quando a vida fica pesada e difícil demais para ser levada sozinha e na minha inocência espero que me ouças, espero que estejas orgulhosa de mim, espero que estejas sentada a meu lado enquanto te escrevo isto e que me ouças nos soluços e nos silêncios, no bater das teclas e nas lágrimas que carregam dor e saudade, que caem cheias de nada, de um nada que nos pertence há já muito tempo. 

Vives na nossa melancolia desde que deixaste de viver connosco, 

vives nos dias em que não apetece levantar da cama, 

vives no aperto no coração a cada fotografia perdida que vou encontrando, 

vives em mim e no meu mau feitio, 

na minha determinação, 

nas minhas respostas afiadas e prontas. 

Vives em mim e viverás eternamente. 

Tudo dói. 

Tudo custa. 

Mas nada dói mais do que a falta de uma despedida. 

Não tive direito a isso. 

Sinto que te deixei ir, que te larguei a mão e te deixei cair, 

sinto que ficou muito por dizer, 

ficou muito por fazer e por viver, 

ficou toda uma declaração por fazer, 

Deus ficou em dívida para comigo quando te levou sem me permitir sequer o meu adeus, a última palavra bem-dita. 

Lembro-me daquela manhã, mas mal. 

Lembro-me do choro da mãe e da avó, 

lembro-me de não o conseguir fazer, 

lembro-me de me sentir mal por não conseguir fazê-lo, 

de me crucificar por não te chorar como todos os outros, mas não o conseguia fazer. 

Era a primeira vez que lidava com a perda, era a primeira vez que não te sentia ou via, era a primeira vez que o telefone de casa não tocava às 15:00 e às 18:00 e eu não sabia como reagir, era como se tudo tivesse parado desde a notícia, e mal eu sabia o que estava por vir. 

Foram noites em claro, foram momentos que perderam a piada, foram cores que perderam a saturação, foram lágrimas que vieram sem avisar, foram músicas que deixaram de fazer sentido. 

Passamos dos risos ao silêncio às refeições, à televisão apagada por semanas, a silêncios pesados, a covas profundas que seguravam os nossos olhos. 

Nunca mais fomos os mesmos, acho que nunca o seremos. 

Dizias muitas vezes que só me querias ver com 18 anos e eu queria tanto que aqui estivesses, queria tanto que me mimasses e afagasses o cabelo. 

Gostava de ouvir a tua voz para nunca a esquecer, 

gostava de conversar contigo, 

gostava de te poder contar tanta coisa, 

gostava de me poder rir contigo. 

Gostava de te poder ter sem ser apenas em memórias. 

Gostava de me poder lembrar sempre de como foste durante toda a tua vida e não apenas como naquele último ano pálido e impessoal, mas a memória tem destas coisas, há coisas que por mais que tentemos não se esquecem, há memórias gravadas a tinta permanente, há tatuagens que fazemos sem o nosso próprio consentimento. E dói. 

Escrevo-te muitas vezes mas acabo sempre por apagar, acho que não há, agora, palavra alguma que te traga de volta ou que te possa fazer chegar o que ficou por dizer enquanto viva, porque acho que, estejas onde estiveres, prefiro acreditar que estás aqui, que de vez em quando ainda me visitas de noite e me puxas os lençóis porque a noite está fria, prefiro acreditar que me ouves quando te falo, 

prefiro acreditar que me lês, que me sentes, prefiro acreditar porque o posso fazer, porque o quero fazer. 

Sossega-me pensar que sabes que estou bem, que tentamos estar bem e conviver com a saudade de ti. 

Sossega-me sentir-te perto. 

Sentir-te cá. 

Gosto do conceito de "para sempre". 

Prometo-te o meu. 

Prometo-te que viverás sempre no meu "para sempre".  

A saudade pode não matar, mas há feridas que o tempo não cura, que não cicatrizam. E é assim que somos sem ti. Corpos com feridas abertas que transpiram saudade.  

"Vó", há coisas que não mudam e há casas que são para sempre nossas. 

És casa. 

Serás sempre. 




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