Benedita
Penso muitas vezes no que virá depois de ti, no vazio que virá depois de nós.
Penso muitas vezes na minha incapacidade de pensar sequer no "seguir em frente" e naquilo que as minhas amigas, quando confrontadas com esta possibilidade, dizem ser o "criar novas memórias". Mas que bela merda. Criar novas memórias? Depois de ti? Depois de seres o meu primeiro tudo, a minha primeira boa experiência com tudo, em todo o lado, foste a minha primeira boa memória em todos os lugares, sítios e pessoas, a minha primeira boa experiência com o medo e com o amor, com a superação e com a dor.
Há uns anos espalhei fotografias nossas pelo meu quarto. Lembram-me muitas vezes do que somos, do que fomos e da possibilidade do que seremos um dia, mais tarde. Sabes, agradeço silenciosamente às fotografias por me lembrarem que estiveste lá para mim nos momentos que mais precisei, que mais me marcaram e sei que estiveste lá para mim, mesmo nos momentos em que não estavas fisicamente, mesmo nos momentos em que ainda nem nos conhecíamos, porque, acredita, a vida tem os seus planos, às vezes filhos da mãe, mas graças a Deus não errou neste. E não estou a ser exagerada quando digo que acredito perfeitamente que a vida me tenha guardado para ti, me tenha preparado para sentir tudo isto, toda esta balbúrdia de coisas boas que sabem a Cuba e a México, que sabem ao samba e à salsa, que traduzidos soam exatamente a esta adrenalina e confortável sensação de rotina surpresa que trazes contigo há já 7 anos.
Estiveste lá quando os meus medos foram maiores que a minha coragem, encorajaste-me, mas confortaste-me, deixaste-me saber que fosse qual fosse a minha decisão, ao fim do dia estarias lá para me apoiar.
Estiveste lá na noite a seguir a uma conversa dessas, no dia em que cantei pela primeira vez em público. Estiveste lá. Beijaste-me "boa sorte".
Não sei se o sentiste, mas foi um beijo diferente de todos os outros que já tínhamos partilhado antes. Aquele beijo pesava tanto, significava tanto para mim e para a pequena, insegura e romântica incurável Benedita. Era a primeira vez, em anos, que sentia que alguém acreditava mesmo em mim, nas minhas capacidades, alguém que não fosse a minha mãe ou o meu avô, alguém que visse esta Benedita como alguém que é do mundo e que consegue ser maior do que os seus medos, inseguranças e muros que a protegeram até tu chegares.
Estiveste lá, na plateia, e por mais que tivesse tentado, tudo o que cantei foi para ti, mesmo que a letra das músicas não ilustrasse completamente a nossa realidade, tu eras o meu porto-seguro e sabia que se, naquele momento, alguma coisa corresse mal, era a ti que recorria, era apenas junto de ti que conseguiria desabar, deixar os muros cair, ouvir as pedras racharem quando colapsavam contra o chão frio e chuvoso, eu sabia que se isso acontecesse eram os teus ombros que parariam as minhas lágrimas e era no teu abraço que eu estaria em casa, porque tem sido assim desde que te conheci. Trazes contigo esse casaco de amor bordado a compaixão e a conforto que desconhecia, trazes contigo esse olhar cor esperança, mergulhado em intensidade, trazes contigo o curso superior em ler a minha alma. Não trouxeste paz porque sabias que não era disso que precisava. Trouxeste o nosso caos perfeito, suave e calmo, o caos em que nos temos descoberto. E sei que sabes que não trocava este nosso caos suave pintado com o verde dos teus olhos e o castanho dos meus, por uma paz a preto em branco com nenhuma outra alma. Porque a minha escolheu-te desde o primeiro dia.
Antes de entrar em palco estava nervosa, como nunca tinha estado antes. As pessoas assustam-me, só a ideia de falhar, sozinha, assustava-me. Não queria falhar. Não podia falhar.
Depois da atuação corri para junto de ti. E senti-me em casa (dizes muitas vezes que sou previsível e esta frase também o foi, eu sei). A tua mão nas minhas costas segredava-me promessas silenciosas de que seria sempre assim, de que estarias sempre lá para mim, de que estava certa.
Estiveste lá em fim de ciclos que me marcaram imenso, a segurar a minha mão e a minha vida.
Conheceste a minha mãe, mas ficará sempre por conhecer uma pessoa, que acredito que ter-te-ia adorado.
Com os cabelos cinza, cor prata, que brilhavam como as estrelas que lhe fazem companhia agora, apanhados num puxo no fundo da cabeça, avental e saia ter-te-ia chamado de neto e ter-te-ia acolhido em sua casa como fazia parte do seu carácter.
Ter-te-ia cozinhado feijoada ou "papas" (as especialidades dela), ter-te-ia dado "uns trocos" que procurava impacientemente lá no fundo do porta-moedas preto já desgastado, cada vez que lá fosses a casa. Teria, com toda a certeza, criticado as tuas calças rasgadas e ter-te-ia avisado, cada vez que saíssemos de casa, para teres cuidado na estrada e para ires devagar. Ter-te-ia pedido que ligasses quando chegasses, para saber que chegaste bem. Ter-te-ia respondido mal, como fazia com todos nós. Ter-te-ia reservado um lugar em todos os jantares ou almoços de família, ter-te-ia servido o melhor tinto da tua vida. Ter-te-ia guardado um lugar ao pé da lareira para te aqueceres depois do trabalho, no inverno, ou simplesmente quando estivesse mais frio do que o normal, lá fora.
Sei que ela ter-te-ia amado, como se fosses dela, porque era assim que era e era assim que seria, se tivesses a hipótese de a conhecer.
Não te conheceu. Não a conheceste, mas tenho a certeza que, esteja ela onde estiver, ela sabe que tenho feito a melhor escolha, todos os dias. Esteja ela onde estiver eu sei que te conhece e que te quer bem, tal e qual como se fosses um dos dela, como se a cumprimentasses todos os dias com o "bote-se a bença" como fazia a minha avó. Esteja ela onde estiver, tenho a certeza que sabe que me salvaste de tudo aquilo que tinha medo, sabe que curaste feridas que não eram tua responsabilidade, sem pensar duas vezes, ela sabe que estiveste cá para mim quando nem eu estava para mim mesma, que estiveste lá quando desisti de ser.
A ironia das histórias nem sempre precisa de ser narrada explicitamente, na nossa não é diferente, na realidade é bem simples. Não me viste afogar porque não deixaste que isso acontecesse, não me viste parar porque não deixaste que eu estagnasse, não me deixaste a mesma Benedita que te conheceu, cresceste e fizeste-me crescer contigo. Estiveste lá no início de tudo, nas mensagens de apoio e força antes dos teatros, antes das atuações, antes dos testes e exames, da entrada na faculdade, no exame de condução e em todos os pequenos grandes passos que fui dando como uma criança quando aprende a andar de bicicleta, sempre com medo que largasses a minha mão porque porra, a estrada parecia ser tão assustadora quando olhava para ela sozinha. Ainda o é.
Sempre fui imensamente insegura e vivia com incertezas, com a incapacidade de fazer escolhas, mergulhada na indecisão e no medo de não ser o suficiente para quem me dava mais do que pensei, um dia, ser humanamente possível, mas desde o primeiro momento em que quis escrever sobre ti e palavras como "muito" e "admiração" passaram a ser banais e insuficientes para te descrever, a ti e a tudo isto que trago comigo, eu soube que não podia mais certezas ter.
Dizem que é assim quando o coração e a mente querem o mesmo, quando te tornaste na minha canção favorita e no poema que não consigo parar de ler, quando não tenho medo de chorar, rir ou estar atrapalhada à tua frente. Não tenho medo que me vejas, como sou, como tive medo que me vissem ser, até "antes de ti".
Penso algumas vezes no que houve antes de ti. Vivo o que há enquanto existes na minha vida. Mas não quero ser forçada a pensar no que poderá haver depois de ti, Pedro.
Acho, sinceramente, que não nasci para escrever sobre o que há depois do amor.
Acho que isso não é possível. O que há após o amor?



😮💘
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