Margarida

A Margarida não é alcoólica. É só uma grande apreciadora de vinho, em geral. Todos menos o tinto. Ela nem bebia, antes de conhecer o Rui. Não bebia enquanto namoravam, nem enquanto moravam juntos, nem enquanto foram casados. 
A Margarida só começou a beber quando já não conhecia o Rui. Ou melhor, quando descobriu que não conhecia o Rui. 
No dia do divórcio. Ia para casa a pé, na rua escura e vazia que pensava já conhecer como a palma da sua mão. A Margarida é do tipo de mulher que comete o mesmo erro várias vezes, orgulhosamente.
Tal como pensava conhecer a rua, pensava conhecer Rui. Ambas estradas culminaram em desastres. Não sabemos qual o pior. Se o vício malicioso do álcool ou a morte lenta que o Rui causou nela. Naquela rua, o único barulho que se ouvia era o bater dos saltos no paralelo mal-amanhado. Ecoava. Começava a chover. O vestido preto, a simbolizar o luto pelo tempo que perdeu da sua vida a amar sozinha, começava a pesar. Foi instinto abrigar-se. Num bar. Entrou e olhou em volta. Nunca lá tinha estado. Não conhecia o nome, o espaço e muito menos a única pessoa que estava lá dentro, deduziu ser o empregado. Seria estranho se não fosse. Sentou-se ao balcão. No momento em que ia pedir um café a palavra “vinho” saiu da sua boca. Não era normal. Nem se reconhecia. Era uma nova Margarida que nascia ali. Sem pai. Sem mãe. Recentemente divorciada. A Margarida nasceu sozinha. Mas a partir desse momento todas as células do seu corpo reconheceram esse ato como algo normal. Instinto. A palavra “vinho” tornou-se uma constante. Tal como a frase “mais um, por favor”. 
A Margarida não é alcoólica. É uma mulher com um coração partido por uma pessoa que nunca chegou a conhecer. A Margarida, na realidade, nunca amou o Rui. Ela amava a ideia que criara dele. Numa das noites em que chegou a casa a cambalear, a Margarida escreveu uma carta ao Rui.

Nem sei se te trato por Rui ou por grandessíssimo cabrão, na realidade nem sei se esse nome te encaixa tão bem como o que me está a passar pela cabeça, agora, mas eu até gostava da tua mãe, não tem culpa do asno de filho que te tornaste.
Não estou bêbeda, se é isso que pensas. A minha letra sempre foi assim, torta e sempre escrevi com erros ortográficos, talvez não tantos como agora. Não me magoaste assim tanto para me meter no álcool. Isto não é nenhum filme em que a mulher indefesa e magoada afoga as suas mágoas no vinho tinto. Descobri que prefiro vinho branco. Gin e caipirinha também me agradam, por acaso, mas têm de ser bem fortes. 
Estou-te a escrever esta carta porque não tinha mais nada que fazer e porque não conseguia dormir. Às vezes, do nada, fico mesmo triste, mesmo, mesmo triste. Até hoje não sei o porquê de me teres feito isto. Amei-te com tudo o que tinha e que não tinha, dei-te as minhas palavras, o meu tempo, a minha dedicação e a minha vontade e tudo o que dizias era que trabalhavas imenso, ligavas a cancelar jantares porque havia uma reunião qualquer de última hora. Não foi agradável descobrir que a reunião de última hora tinha cabelo loiro e cinta fina, uns peitos mais volumosos que os meus, que tinha olhos azuis e que te roubava de mim. Fiquei-lhe com raiva. Colossal. Mas depois perdoei-a, a ela e a mim, por a ter odiado por uns tempos. A ti não. Há coisas e pessoas que nunca chegamos a perdoar. Sinto que não preciso de te perdoar para me perdoar a mim mesma. Na realidade não era ela que te roubava de mim, eras tu que não querias ser meu e que te deste a outro alguém. Ninguém rouba ninguém de ninguém. Mas há pessoas que se deixam roubar porque não têm intenções em ficar. 
Sabes, Rui, há dias em que te culpo imenso. Há outros em que te peço desculpa baixinho antes de adormecer. E depois há outros em que não sei se te quero perto ou se nunca mais te quero ver. A minha mãe era médica, e ela dizia-me, quando eu inventava de correr e esfolava os joelhos, que há feridas que não saram tão facilmente como as do joelho. Tu, Rui, és uma ferida que custa a passar, mas creio que vai passar. Espero eu. Se não passares, vou desinfetando a ferida que causaste com álcool, com o copo perene na minha mão. Foda-se, afinal estou bêbeda. Talvez esteja só um pouco alcoolizada. Sinto que se estivesse bêbeda não teria a capacidade de escrever tão bem. Também me falta a humildade, às vezes. Mas tu também me faltaste, então quem és tu para julgar.
Vou vivendo bem sem ti, Rui.”







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