A Marta não é como a Camila. Nem tão pouco como a Benedita. A Marta é poeta. A Marta tem medo de tudo o que mexe e muda. Não gosta de pessoas. Mas ama o Simão. É amor. Antes de o conhecer dizia que o seu único vício era o tabaco. Gostava do sabor que ficava na boca, dizia ela. Agora é viciada numa outra substância capaz de matar, também. Viciada numa nicotina que dorme lá em casa e que diz que a ama. Mas a Marta é poeta. Sofre pelo que existe e pelo que só existe na cabeça dela. Ou nos poemas dela. A Marta não é como a Camila, nem como a Benedita. A Marta não pode ser comparada a nenhuma outra mulher. Ela é poeta. E apaixonada. Uma combinação improvável, mas que quando se dá, é capaz de construir ou destruir mundos. A Marta é o limiar entre o amor e a loucura.
Esta é uma carta da Marta, para o Simão.
“Não tenhas medo de me amar, Simão.Não tenhas medo de dizer que me amas.
Não tenhas medo de me dar a mão quando há mais gente à nossa volta.
Não tenhas medo de me beijar quando a minha mãe está a ver.
Não tenhas medo que a comida queime e vem-me abraçar mal chegas a casa depois de um dia cansativo.
Não tenhas medo que te vejam como eu já te vi.
Não escondas a raiva quando o Benfica perde e solta um “foda-se que dia péssimo”. Faço-te uma tosta e digo que comprei uvas sem grainha. Não tenhas medo de me sorrir. Sim, lembrei-me. Lembro-me sempre.
Não tenhas medo de me mostrar o teu outro lado que eu não vou a nenhum lado.
Não tenhas medo que me vá embora. Não vou. Só se quiseres que vá. Quando quiseres que eu vá. Mas não me mandes embora assim, silenciosamente, só porque tens medo que saibam que dentro de ti há um coração.
Não tenhas medo de mostrar que te importas. És tão importante.
Não tenhas medo de ser. Serás sempre importante.
Não tenhas medo de longas conversas, não tenhas medo de “olhos nos olhos”, de “cara a cara” nem de “coração a coração”. Não tenhas medo de admitir que há culpa de ambos em cada pequeno desentendimento.
Não tenhas medo de dizer que vês em nós um futuro. Eu também vejo.
Aliás, vejo mais que isso. Vejo em ti todos os tempos verbais imaginários. E só te imagino no meu vocabulário. Vejo em ti toda a capacidade do mundo para seres feliz e para concretizares todas as tuas prioridades.
Não tenhas medo de as estabelecer bem.
Não tenhas medo, Simão, porque eu entendo se um dia não quiseres mais o meu bom dia, entendo se um dia não quiseres mais o meu calor e energia, o meu pão com queijo ou a sangria. Eu entendo tudo isso. Ou minto e finjo que entendo. Desculpa, faz-me imensa confusão quem tem medo de ter um coração.
Mas se há coisa que entenderei é se um dia não quiseres mais as minhas palavras.
Entendo se um dia não quiseres mais fazer parte de um futuro que só existe contigo.
Eu entendo.
Só não entendo o medo de amar.
Acho que é porque nunca pensei que existissem consequências más em amar demais e em não ter vergonha de assim ser. Não estamos em tempo de esconder amor quando há tanta gente que o procura.
Não estamos em tempo de esconder loucura.”
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