Diogo


O Diogo conhece a Teresa há 3 anos e tem a certeza de que a ama desde o primeiro dia. Diria que é demasiado poético para alguém que não é de muitas palavras, que o diga a Teresa. Esta é uma carta de um homem real, que sente com o coração e que tem a consciência de que isso não o faz menos homem. Antes o soubesse antes de perder a Teresa para sempre, naquele para sempre que sempre se prometeram. O mundo tem destas coisas, mas o amor não. O amor não é só isto, mas também não sabemos dizer se é muito mais do que aquilo que já conhecemos sobre ele. 


 "Teresa,

Sei que demorei demasiado tempo a conseguir dizer-te e mostrar-te o que sou e o que sinto e tens razão, é estúpido, é frustrante e é cansativo. É desgastante. É a impotência de te perder aos bocadinhos e não ser capaz de fazer nada para mudar isso. Gostava de te poder dizer que estás a ser injusta, mas não estás. Mereço a tua indiferença, o teu ódio, mereço a tua ausência tal como mereci aquele estalo, os teus berros, o teu choro e a tua promessa de que nunca voltarei a ter a tua confiança. Mereço tudo. Mereço e entendo. Mas quem sou eu, afinal, para me julgar na posição de entender seja o que for se o amor só chegou à minha vida quando chegaste tu, Teresa.

Mereço tudo, só não mereço que me digas que não sei o que é o amor.


O amor és tu, Teresa. São as tuas covinhas quando sorris, o teu riso desordenado e estridente, são os teus quadros, os teus desenhos soltos na aula de História, a tua concentração ao tentar resolver um problema de matemática, é a forma em como trincas a língua com os lábios quando estás concentrada, é a forma em como me fazias festinhas na cabeça sempre que me deitava para o teu ombro, é a tua paciência, o teu sotaque vincado, os teus livros de poesia, as tuas chamadas à noite a pedir que te contasse uma história para adormecer. 


Gostava de dizer que o amor é alguma outra coisa para além de ti, mas só conheço o amor assim.


Antes de ti, sempre fui egoísta o suficiente para dizer que prefiro o inverno, mas chegaste tu, o culminar de todas as estações num só corpo e alma.


E se as ciências não me falham, digo com toda a certeza que iluminas cada célula do meu corpo como se de morfina fosses.


Acredito profundamente que me curas de formas que nem a medicina conseguiria explicar e acho que é por isso que é desumano amar-te em demasia, naquela medida que não pode ser medida pela matemática ou pelas ciências.


Só não te amo como já amei, seria insano se assim o fosse, se com o passar do tempo não te amasse mais do que quando te vi pela primeira vez.


Era uma sexta-feira de verão em Almada, saí mais tarde da Universidade e, ao fundo das escadas, lá estavas tu e os teus cabelos loiros feitos mel, que cai sem pedir perdão ou licença. A tua pele branca beijava o sol, num beijo demorado e corado enquanto a tua voz adoçada pela sinceridade acompanhava a felicidade desses teus olhos dignos de todas as poesias do mundo. Estavas com um vestido castanho com flores bordadas a amarelo. Disseste-me, uns meses mais tarde, que era o teu vestido favorito, tal como me contaste que castanho era a tua cor preferida, que gostavas de poesia e arte em geral, que gostavas de ouvir música mais calma que o normal e que longas viagens de carro te lembravam a tua infância. Contaste-me muita coisa sobre ti, mas nada se sobrepõe a todas as coisas que fui aprendendo. Fui-te aprendendo. Estudei-te durante estes três anos, mas não num estudo possessivo e louco, mas num estudo de admiração.


Sei-te de cor como a letra das minhas canções favoritas. Conheço todos os teus sinais que se espalham pelo teu corpo e acompanham as tuas curvas, conheço a tua marca de nascença ao fundo das costas e a cicatriz dolorosa no ombro esquerdo, o tornozelo deslocado pelas quedas recorrentes ao longo dos anos. Conheço o estranho gosto pelas torradas queimadas e pelo café morno com demasiado açúcar pela manhã na tentativa de cancelar o mau-humor, conheço o gosto pelos banhos de água fria de manhã e a justificação que sentes necessidade de dar porque te chamam louca. "O que foi? Despertam-me". Conheço quase que milimetricamente o espaçamento entre as tuas costelas de tantas vezes que as tracei com as pontas dos meus dedos, conheço o mau feitio que lá está, vem pela manhã e por vezes dura até à noite, mas que desaparecia quando te deitavas na cama e descansavas a tua cabeça no meu peito. Dizias que o bater deste meu coração te acalmava. Mal sabias tu que o coração que em tempos batia no meu corpo que te acalmava as noites mais difíceis, agora bate num corpo tão longe do meu. No Teu.


Lembro-me de te perguntar se eras poeta. Riste-te e disseste que eras pintora ou, pelo menos, gostavas de pensar em ti como uma. E és, Teresa e não te digo isto apenas porque conheço a tua mestria nas tuas obras, digo-o porque és artista e mestre na arte de amar.


Foste tu que me ensinaste o clichê. 


Era vazio e pensava que as emoções não faziam parte do vocabulário masculino, pensava que o choro só vertia de olhos femininos e que a dor masculina era meramente física.


Não me culpo e espero que entendas que foi o que aprendi durante toda a minha vida. E é por essa mesma razão que sei que foste a maior lição da minha vida.


Ensinaste-me não só o amor, mas também o que é, de facto, ser humano, sem todos os rótulos plastificados, barreiras e muros em que nos enclausuram devido à nossa biologia. E logo eu, amante das ciências e da matemática, perdi as contas de quantas vezes tentei calar o amor que sentia por ti. E tanto que o calei que já nem o teu coração o ouvia quando estávamos em silêncio.


Pensei que me tinha feito um homem como o meu pai me dizia para ser, tantas vezes, quando era mais pequeno, mas vejo em mim, agora, uma maior dependência. Agora só falo no que era antes de ti porque me custa falar de um agora em que não estás nem és presente, és a sombra do homem que pensei ser, mas que infelizmente não consegui, queria sê-lo por ti, por mim e pelo futuro que já nem presente é. Sou inteiramente fruto da tua arte e das tuas pinceladas rápidas e seguras e estou seguro de que és a minha cor favorita. Conheci-me antes de ti, conheci o que era a vida contigo, mas não estou minimamente preparado para saber o que é a vida depois de ti. Nem sei se a há.


Peço-te só que não vás. 

Com todo o amor do mundo,

Diogo."





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