Mariana

    A Mariana é fotógrafa e por mais estranho que soe, a verdade é que tem muito mais em comum com todas as outras mulheres sobre as quais já escrevi, do que pensava. 

É filha da arte e da poesia visual, é o que a própria diz, numa das mais antigas passagens do seu diário. Escreve nele desde sempre, enche-o de fotografias analógicas e com uma aparência mais antiga, com granulado e caráter momentâneo e instantâneo. Cola-as às folhas com fita crepe e quando se sente mais notálgica revê-o, página a página, nunca ignorando ou deixando de ler as legendas por debaixo de cada fotografia que foram escritas cuidadosamente, fazendo questão de não borratar a tinta preta, filha de uma caneta de gel de ponta fina que a Mariana comprou na papelaria da sua escola, há uns belos anos atrás. É assim que ela é e apesar de não o deixar transparecer para todas as pessoas, tem dentro dela uma sede por amor que parece nunca ser extinta, contrariamente à sede que é tão vulgarmente morta pela água. 

    A Mariana é das fortes. Bebe shots de absinto sem fazer cara feia, despediu-se do seu primeiro emprego para se tornar uma freelancer e saiu de casa dos pais quando tinha 16 anos para estudar fotografia, mas de todas as decisões e momentos da sua vida, ter-se apaixonado pelo Ricardo continua a ser a mais rebelde a que alguma vez se propôs. 

Foi o Ricardo que roubou o tempo que a Mariana dedicava a escrever no seu diário. Ela agora escreve somente cartas de amor. O Ricardo nunca desconfiou. Apesar de ser mais branda por casa, continua a adotar a postura inquebrável com o objetivo de mostrar que nutre poucos sentimentos. o Ricardo sabe que não, mas torna-se difícil de acreditar nos seus instintos quando a Mariana lhe dá tudo menos motivos para que o faça.     Ontem, como homem organizado e responsável que é, organizava o guarda-roupa, mas há coisas que por mais que queiramos nunca mudam. O Ricardo é, desde sempre, desastrado, às vezes, diria até que não possui qualquer coordenação motora. Enquanto pendurava algumas camisas, um dos cabides escorregou-lhe da mão, sabe-se lá como, e acabou por cair. Bufou. Fez cara feia, mas depois lembrou-se de que era um homem, maior de idade, a fazer uma birra por causa da sua ausência de coordenação. Bufou outra vez enquanto se dobrava para apanhar o cabide caído no chão quando encontrou uma caixa de sapatos, escondida no fundo do móvel. Achou estranho, nunca tinha visto aquela caixa antes, especialmente naquele lugar. Na tampa podia ler-se, na caligrafia torta da Mariana, as seguintes palavras: Não abrir. O Ricardo deixou escapar um (quase que) inaudível riso. Até parecia que a Mariana não conhecia o homem com quem vivia. O Ricardo não se conseguiria controlar. É demasiado curioso para isso. Abriu a caixa com uma rapidez determinada e jura, até ao presente momento, que o que encontrou dentro dela não passou de um sonho. Mais de 200 cartas, fotografias espalhadas, bilhetes de avião da viagem a Paris, bilhetes de comboio das viagens para verem as luzes de Natal, talões das refeições nas férias a Itália em 2019. Memórias que não eram só da Mariana. Pertenciam também ao Ricardo. 


Esta é a primeira carta de amor que o Ricardo leu na vida. E por mais irónico que pareça, foi escrita pela alma sensível, presa na postura inquebrável da Mariana. 


   

De: Mariana 
Para: Ricardo 

Nunca contei isto a ninguém, acho que nunca serei corajosa o suficiente para o fazer, acho que nunca estarei pronta para o fazer. 

Perguntas-me muitas vezes porque é que tiro fotografias, tantas e a tanta coisa, porque é que insisto em tirar-te fotografias, porque é que fico chateada quando não mo deixas fazer. Pensei que nunca teria a resposta para essa tua pergunta. Estava a negá-la. Sempre a tive. Esteve sempre cá.  

Tinha 15 anos quando diagnosticaram a minha avó com Alzheimers. Ficamos de rastos. Toda a família, mas ninguém sofria como o meu avô. Têm a história de amor mais bonita que algum dia poderia ser escrita. Eles foram sempre poesia. Ensinaram-me o que é o amor. E se te amo hoje, foi porque o aprendi com eles. Amaram-se durante a guerra, amaram-se em todas as cartas e fotografias que foram trocando. Amaram-se quando se viram e se juntaram após estarem tantos anos separados. Tinham discussões, como é óbvio, mas amavam-se em todas elas. A forma como o meu avô olhava para a minha avó jamais poderia ser fotografada, escrita, pintada ou traduzida em qualquer pedaço de arte. Eles deram esperança à pequena Mariana para que ela pudesse acreditar num amor como o deles.  

Após aquele dia, a dor tornou-se rotina durante toda a minha adolescência. Via no corpo, nas rotinas e no rosto pesado e envelhecido do meu avô, o sofrimento que ia contrastando com a doçura e inocência da minha avó. Vi a forma lenta e dolorosa em como ela se foi esquecendo dele, em como se foi esquecendo das palavras, dos afetos e da história que me deu esperança para criar a minha. Esqueceu-se do toque, das férias no Algarve, esqueceu-se dos invernos à lareira, dos risos. Esqueceu-se de mim, mas nada doía mais do que a ver esquecer o amor da vida dela, de a ver esquecer quem foi, de a ver esquecer-se da juventude que me foi contando nas noites em que ia lá dormir a casa e me aconchegava a roupa da cama. Esqueceu-se de como conheceu o meu avô, mas de alguma forma, em jeito de homenagem e profundo respeito, jurei, eu, nunca o esquecer. Ouvi tantas vezes aquela história e em todas elas vi o sorriso da minha avó enquanto me contava o dia mais feliz da vida dela. Não a condeno. Um amor como deles não se encontra assim, em qualquer lado.  

A minha avó morreu três anos após ter sido diagnosticada. O meu avô morreu dois dias depois da morte dela. Foram as perdas mais difíceis da minha vida, mas eu soube sempre que não haveria, para o meu avô, um mundo em que a nossa Rosa não existisse. Foram feitos um para o outro e fizeram da minha vida a maior exposição de poesia que alguma vez irei conhecer.  

Cresci com medo. Cresci com medo de me esquecer de quem sou, de como são as coisas agora e como eram antes. É por isso que sou fotógrafa. É por isso que escrevo, fotografo, gravo e guardo tudo o que posso, para que, um dia, se não me lembrar mais de quem sou, outro alguém me possa dizer ou mostrar. E eu prometo acreditar. 

Este meu medo piorou desde que te conheci porque dentro de mim senti o toque da poesia que pensei só ser possível ler nos carinhos e amor da minha avó e do meu avô. Perdi-os a eles. Não quero perder a poesia. 

Ricardo, tu trouxeste-me paz, mas trouxeste-me medos. O de te perder e o de um dia poder não me lembrar de ti, porque herdei esta mania de não conseguir imaginar um mundo em que se fale de poesia e não estejas cá tu. E se um dia eu acordar e já não te admirar como faço agora? E se um dia já não reconhecer o verde dos teus olhos e essa tua estranha facilidade em apanhares escaldões? E se um dia já não me rir das tuas piadas sempre que o Sporting perder? E se um dia o cheiro que deixas nas almofadas já não me lembrarem de casa, como fazem agora? 

E se um dia eu não me lembrar de quando fomos ver as luzes de Natal do Porto e queimei a língua com chocolate quente? Ou se não me lembrar da viagem a Paris no Ano Novo? E se um dia eu já não me lembrar dos teus beijos? Promete-me, então, que me vais fazer lembrar, que me vais beijar até que eu me lembre de quem fomos, o que somos e o que vivemos. Promete-me que me vais lembrar do que é o amor, o nosso amor, mesmo se um dia eu já não me conseguir lembrar.  

Podes continuar a esconder-te cada vez que te apercebes de que te estou a tirar uma fotografia ou a gravar, na realidade, até hoje, não sei se o fazes por timidez ou vergonha, mas sei que as covinhas aparecem e as bochechas continuam a ficar encarnadas. Podes continuar a esconder-te dos meus vídeos e fotografias se prometeres que um dia não te vais esconder dos pensamentos quando eu procurar por eles nas memórias que restam. E se um dia só as memórias materiais sobrarem? E se um dia forem tudo o que me resta?  

E se um dia eu já não me lembrar de quem sou e do que fomos, se um dia eu já não me lembrar do toque, das carícias na cabeça ou dos serões de sábado a ver filmes no sofá? 

Ai Ricardo, se um dia eu já não me lembrar do amor, prometes fazer-me lembrar? Enquanto me lembro, prometo tatuar-te no coração caso a mente te esqueça, um dia. Assim, se já não me lembrar disto, lembrar-se-á o coração e a pele, lembrar-se-ão as borboletas que continuarão a voar cada vez que me falares ou tocares, cada vez que vir uma fotografia ou vídeo, cada vez que a memória acorde do sono profundo que temo desde que me lembro de ter medos. Tenho em mim borboletas e andorinhas espalhadas pelo corpo, conhece-las a minha pele, a minha mente e o meu coração. E se um dia, a andorinha que se fez turista na mente morrer, há-de continuar a haver primavera. Porque é a verdade. Nesta vida, por morrer uma andorinha não acaba, nunca, a primavera. E tu, és a minha primavera. Soube-o desde o verão em que nos conhecemos. Agora, e mesmo que um dia não me consiga lembrar, sei que te vou ver em todos os segundos de todos os minutos que cabem num dia das semanas de cada mês que vão constituindo os anos, as estações. Isto tudo, porque te fizeste folha perene numa árvore que nunca nasceu para morrer.” 


 



 

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