Canção de um verso só

 sou verso perdido no poema de alguém.


sou verso que rima sem querer,
sem pontuação e sem vontade de a ter,
que é poesia querendo sê-lo, sempre,
até deixar de a ser.

sou verso perdido na quadra de alguém,
filha de número par
que, numa triste realidade,
está sempre demasiado perto da nulidade,
numa corda bamba e linha ténue
entre a dúvida de ser poesia
ou de me entregar, um dia, à rudez da prosa,
à nudez de me apresentar em frases compridas e complexas
cheias de verbos ou advérbios
que pouco ou nada me acrescentam.

sou verso perdido na simplicidade de alguém.
na vontade de ser verso de Camões ou de Pessoa,
na esperança de ser verso num poema que não o meu.

nestas coisas da poesia, tanto peca o crente como o ateu.
Somos todos versos num poema que não o Seu.

Vivo condenada a ser verso perdido
na vida de alguém.
ora, se fosse verso acertado
enquadrado
e pensado
numa poesia que fosse minha,
não seria nada mais do que comodidade
de quem nunca desejou a cidade,
de quem sempre escreveu junto à lareira
com vista para o quintal
e nunca viu mal
em não querer ter nada mais.

não se é nada de especial
quando não se rima no próprio poema.

e é por isso que trago comigo
um sentimento de culpa e de pena
por mim mesma,
por nunca me ter permitido ser poema
e me limitar constantemente à categoria de verso.

Mas prefiro somente verso ser
do que nunca poesia conhecer.

assim, vou sendo poesia, aos bocados
entre recursos expressivos e recados
de amores que não conseguem ser amor
se não oferecerem poemas embrulhados em beijos
que ficam tatuados em almas
vazias.

Porque há sempre tempo e espaço
para mais um beijo,
para mais um abraço,
Para mais promessas de eternidade.

sou poema de um só verso
que crava "saudade" em todos os poemas por onde passa.

é bonito ser verso,
mas é triste a sensação
de que nunca poema serei.

ama-me, então, que mostrar-te-ei que com um verso
também se faz uma canção.




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