Madalena
Madalena é filha de pais separados.
Cresceu muito depressa e nunca em conformidade com a sua idade, cresceu forçosamente nas noites escuras que passava a ouvir os pais discutirem, nas noites em que tapava os ouvidos e murmurava as letras das suas músicas favoritas enquanto abraçava os joelhos e balançava o seu corpo, aninhado em si mesmo, para a frente e para trás, em movimentos constantes e anestesiantes.
A Madalena cresceu com o medo de que um dia as suas noites já não fossem passadas no escuro, mas sim iluminadas pela luz de um candeeiro fraco de mesinha de cabeceira, preenchidas por gritos e discussões. Tinha medo da inversão de papéis, agora que estava habituada a adormecer com gritos de arrependimento e falta de tudo o que é sentimento, não queria, um dia, ser ela a gritar, a chorar os seus pulmões em batalhas perdidas.
Há coisas que ficam.
E Madalena nunca viu ninguém ficar, então, forçou-se a acreditar que nunca seria suficientemente boa para ser amada. Porque dá demais, porque sente demais, porque gosta do exagero, porque se sente culpada de exigir o mínimo.
Conheceu o Eduardo há pouco menos de 3 anos, mas ama-o por uma eternidade. Foi-lhe tão difícil confiar e entregar-se que, quando se apercebeu de que já lhe pertencia, caíram lágrimas de alegria de uns olhos que foram sempre marejados por uma água salgada com sabor a dor e mágoa. É-lhe difícil confiar, é-lhe difícil, ainda, acreditar que alguém tenha vindo para ficar, que alguém, num mar de gente, tenha olhado para ela e se tenha perdido na sua imensidão de criatividade e boa postura, na sua vontade de melhorar e na sua candura.
O que dói a Madalena é o que dói a todas as pessoas ansiosas e com medo (ou trauma) de abandono: a incerteza do amanhã.
Vive nela a necessidade de sentir que é necessária, amada, precisa e a única coisa de que precisa é o bloco de notas no seu telemóvel. É lá que escreve poemas, rimas soltas e prosas, é lá que proclama o seu amor por Eduardo para que não se pense que não consegue escrever sobre mais nada sem ser sobre ele. A verdade é que não consegue.
Este é um dos poemas que escreveu a Eduardo num momento de dúvida e incerteza, mergulhada no medo de nunca conseguir ser Ela.
"Gostava que olhasses para mim
como te vejo olhar para ela.
com esse brilho no olhar
e postura de quem promete não se cansar
de ouvi-la falar da sua vida.
Gostava que me elogiasses
que me chamasses “bonita”
tal qual sei que lhe chamas a ela
baixinho, no teu pensamento,
quando a vês chegar a todo e qualquer lugar,
a qualquer hora ou momento.
Não falo de inveja
nem tão-pouco sei
se poderei carência chamar
à esperança imensa que trago
que um dia me possas amar
como sei que a amaste
no passado.
Ris-te de nervoso quando falas com ela
como crianças que descobrem o amor
no calor e vermelhidão das bochechas
no tremor das mãos que soam rios de nervosismo.
É o coração que parece não se calar ao ritmo de um sismo que só me destrói a mim.
E tu pareces nem notar.
É isto que vejo no teu olhar
quando olhas para ela,
como um pintor olha a sua tela
após meio ano de trabalho.
Nada me custa mais a escrever
do que a certeza que mora em cada palavra:
é ela a tua obra de arte,
truque de magia “avrakadavra”.
E eu que nunca desapareci
só queria que um dia visses em mim
aquilo que nunca viste nela,
nem em mais ninguém.
Mas não há nada que te possa dar
capaz de satisfazer o vazio
de nunca poder ser Ela
e de arder em pouco pavio.
Perdoa-me por te querer.
que eu perdoar-me-ei por achar
que um dia fosses capaz de me amar
como a amas a ela.
Que seja ela, então, Cinderela
e que nunca chegue a vossa meia-noite."



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