Francisca
A Francisca é diferente. É diferente de todas as outras pessoas sobre as quais já escrevi, provavelmente, a mais parecida comigo. Vejo-a e escrevo-a com uma proximidade peculiar, como nunca escrevi sobre outro alguém.
Escrevo sobre ela quase como se escrevesse sobre mim. Então, escrever sobre a Francisca não se torna, propriamente num processo fácil, é como olhar-me ao espelho e tentar escrever sobre um reflexo que, afinal de contas, não é o meu. É uma experiência intimista e pessoal.
A Francisca é mais livre do que eu, mais direta e frontal, mais pulso firme e mais ciente do chão em que orbita. A alma dela é leve, mas a bagagem que traz é pesada. A Francisca é dona da razão e de um feitio raro que caminha sobre a linha ténue entre o forte e o insuportável, mas que quando se para para a observar é dono de uma beleza inexplicável e de uma bondade que nem eu, poeta com os bolsos cheios de sinônimos e palavras enfeitadas, consigo começar a descrever.
Outra das incontáveis coisas que temos em comum é a escrita. Escreve com menos frequência do que eu, mas arrisco-me a dizer que escreve muito melhor do que alguma vez pensarei em escrever. É dona e autora de todos os meus poemas favoritos, daqueles que leio vezes sem conta porque me revejo em todos, sem exceção, em todos os versos, rimas e espaços em branco.
Este é o registo de uma das únicas vezes que escreveu em prosa. Uma carta, para si mesma, para a versão de si que há-de chegar um dia.
“Querida Francisca do futuro,
Escrevo-te agora, em agonia.
Escrevo-te, na tentativa vazia e patética de controlar a respiração desalinhada e desafinada e secar as lágrimas que teimam em não parar de cair.
Têm sido assim os meus dias.
- Têm sido piores as minhas noites.
Mas não o tenho dito. Talvez devesse.
Mas não consigo. Sou fraca. Sou refém de algo maior do que eu, mas que vive tão comodamente aqui, dentro de mim.
Recebo a mensagem de bom dia. Sorrio. Tornou-se, efetivamente, o único momento bom, de todos os dias, quase como a anestesia para toda a dor que nem sabe se dor chega a ser. Devolvo a mensagem. Deito a cabeça na minha almofada na tentativa de cair no sono. Acende-se o ecrã do telefone, pousado numa outra almofada não muito longe da minha. Pergunta-me, depois: “dormiste bem?”.
Acaba-se a anestesia e volta a dor. Voltam a pesar as olheiras e prendem-se os músculos cansados .
Eu digo que sim. Escrevo rápido, para que soe verdadeira, a resposta. Mas pesa o corpo. Desde a ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos despenteados.
Não tenho.
- Tenho dormido pouco.
Tenho sentido muito, demasiado.
Tenho observado muito o escuro e os seus tons diferentes. Todos iguais.
Tenho estado insegura, mais do que o normal.
Tenho estado e sido impaciente, mais do que o normal.
Tenho sentido impotência, mais do que o normal.
- E tudo isto não é normal.
Eu, que sempre a soube esconder tão bem. Logo eu, que chorava no banho para que não fossem tema de conversa os olhos vermelhos e inchados. Logo eu, que camuflava o choro e a dor no peito com a música alta.
E estava tudo bem.
Sem perguntas, sem expressões de pena forçada nos rostos conhecidos, sem olhos marejados de brilho e de frases vazias que rimam estrategicamente com “também já passei pelo mesmo”.
Logo eu, que aprendi, desde cedo, a reparar nas pequenas diferenças no tom de voz e nas atitudes, que aprendi a deixá-las magoarem-me e definirem o meu valor. Logo eu, que acreditava em tudo o que ela me dizia. Logo eu, que era tão boa ouvinte.
Como poderia, eu, não ser, não acreditar?
Berrava-me aos ouvidos e tudo ecoava.
Magoava.
Tirava-me o ar.
Mas estava sempre aqui.
Habituei-me a ela.
Já me era familiar.
- Até que deixou de o ser.
Até que se tornou grande demais para esconder.
Fazia arder o peito e apertava-me o pescoço com uma força descomunal, silenciava-me a voz e ampliava os choros e pedidos de ajuda.
- Do nada, deixou de estar tudo bem.
Agora nada está bem.
Ou talvez esteja.
- Não sei.
Já não sei de nada.
Tapou-me os olhos, os ouvidos e calou-me a voz.
- E agora?
Tremem as mãos, quase que nem consigo acabar de escrever o desabafo infernal de tudo o que tenho sido, sentido e vivido.
Não deixei de ser eu. Espero eu. Não desaprendi a felicidade e sorrisos verdadeiros. Não desaprendi a confiança e a autoestima. Não desaprendi o desejo de viver e não apenas de sobreviver.
Mas olha, sobrevivi ao último mês, custosamente, por sinal. Mas ainda estamos em agosto. Falta tanto para o Natal. Até lá, volto a controlá-la, volto a acreditar nas minhas piadas carregadas de uma autoestima falsa que faz com que ninguém suspeite que a trago comigo. Ainda falta tanto para o Ano Novo.
- Até lá fica tudo bem, certo?
Querida Francisca, desculpa pela bagagem que te faço carregar, desculpa por todas as feridas abertas e pelas cicatrizes que tentas fechar constantemente. Lidar com elas é doloroso, eu sei. Espero que não tenhas perdido o jeito de disfarçar o peso de tudo o que sentiste, viste e viveste. Espero que tenhas aprendido a falar sobre Ela, que tenhas aprendido a cortar-lhe a voz. É que por aqui, ainda é ela que nos corta a nossa. Por aqui, custa muito falar sobre tudo isto, mas descobri que custa menos um bocadinho se escrever sobre Ela.
Desculpa, querida Francisca”



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