"Estrangeirices"
Há coisas bonitas na vida
e nós
deambulantes inocentemente parvos, nesta vida
nunca nos apercebemos delas
até termos 18 anos
e estarmos no comboio
- às 8:30
depois de termos estado, também, no autocarro
- às 7:15.
Tudo isto, para voltar para casa
ao fim de semana.
Porque sem tudo isto,
ao fim do dia
nada seríamos.
a forma em como o aumento da velocidade do comboio
faz com que as cortinas dancem com a gravidade,
a forma em como a senhora
(penso que estrangeira,
pela maneira de se sentar, pela postura
e pelo cruzar da perna)
abana o pé para cima e para baixo
de uma forma automática e que lhe é
certamente
inata
enquanto lê livros em inglês,
sobre Portugal e as suas maravilhas.
Tem muitas páginas marcadas
a rosa.
lê-as com atenção.
os olhos balançam da esquerda para a direita
em movimentos frenéticos
e vai olhando de canto para mim
para perceber que não estou a olhar de volta.
pelo menos não diretamente.
vou me apercebendo que esta
senhora solitária
só tem pressa para uma coisa:
ler.
não tem pressa para mais nada.
o comboio passa devagar para que turistas
olhem a mesma paisagem que olho todas as sextas-feiras.
já nem lhe consigo achar piada.
já nem lhe consigo achar beleza.
é a tristeza de crescer,
a mágoa de deixar de achar piada
às coisas que são sempre iguais,
às coisas que já conhecemos.
todas as outras pessoas apressam-se a tirar o telemóvel das mochilas e bolsas.
era como se o mundo fosse acabar
e a única forma de ter vivido, era ter provas materiais disso mesmo.
A senhora não.
só se apercebe do que se passa
quando sente falta do embalo do comboio nas pontas dos seus dedos
ao folhear o livro.
Pousa-o.
Vai buscar o telemóvel, mas devagar.
quando já o tem na mão, já é tarde demais.
- A excitação do fim do mundo já passou.
não fica desiluda.
dá-me um sorriso.
abre a capa do telemóvel e continua a viagem
a ler as notícias que vão aparecendo.
Há coisas bonitas que só percebemos
quando estamos a voltar a casa,
quando o comboio anda e o tempo não.
O que não é nada bonito
é ir sentado contramão.
enjoo.
faz-me impressão.
é como se a vida estivesse a andar para trás
- que parvoíce, é só o comboio!
eu sei, mas isso não faz com que seja menos dramático e metafórico,
quase como se fosse pressentimento.
prefiro sentar-me de onde consiga ver o caminho que há pela frente,
onde consiga ver a minha estação
mesmo antes de lá chegar.
Prefiro a preocupação constante
de saber que tenho de me levantar antes
e carregar o meu peso e o das malas até à porta.
Deem-me um desconto, acordei às 6.
mas há coisas mesmo bonitas neste mundo.
Uma delas é voltar a casa.



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