4 de novembro de 2023, 17:50


Pensei sempre

que tinha passado toda a minha vida a sonhar

com tudo aquilo que não conseguia ver ou tocar.

Inocência a minha

de garota pequenina

que só queria escrever e desenhar.

Na realidade, sonhei sempre

só com aquilo que não conseguia entender,

sonhei sempre com o amor.

Continuo a sonhar com ele. 

Continuo a acreditar nele

como juro não acreditar em mais nada

de forma cega e constante 

de forma poética e quase inimaginável. 

Quem me lê de fora pensa até que sou louca 

por acreditar tanto

em tanta coisa. 

A verdade é que isto de escolher ser poesia

tem destas coisas,

não há outra forma de viver 

sem ser assim. 

Eu quero um amor como o dos meus avós

daqueles amores geradores da raiva filha do tempo,

filha da nostalgia,

dos arrufos ao começar do dia

e do aquecer dos pés ao cair da noite.

Quero um amor que fique

que me faça cafuné no cabelo até adormecer

que reclame da minha teimosia

mas que seja teimoso o suficiente para me perceber

para me acalmar os pesadelos a meio da noite,

para me mexer a massa das panquecas.

Quero um amor

teimoso o suficiente para insistir

para mudar,

para crescer,

para evoluir,

para aprender. 

Quero um amor que venha para ficar 

e que seja capaz de ver tudo o que tenho para dar.

Quero um amor jovem,

um amor perene

um amor daqueles dos filmes que ninguém vê

gravados a fundo em cassetes

que são vistas

só quando se limpa a garagem.

Quero um amor que vá envelhecendo com as rugas

que vão aparecendo com o tempo 

e com o peso da idade.

Quero um amor de poesia

um amor de candura

um amor daqueles

que vire história no natal

à luz e calor da lareira

resultado da curiosidade dos netos.

Mas não quero um amor de Hollywood,

quero paz,

calmaria,

quero algo confortável dentro de toda a teimosia. 

Quero um amor que dure

que me conforte

quero um amor bipolar

intenso,

mas pacífico 

quero um amor que me faça chorar

mas que me faça, também, rir

que me deixe viver

mas que nunca pare de me fazer sentir viva.

Quero um amor daqueles abundantes,

daqueles que todos os dias antes do trabalho 

Rezo por mais cinco minutos dentro desse abraço casa.

Quero que o meu amor de agora

Seja o amor dos 80, 90 e de todos os outros números que existem entre eles.

- também não quero durar muito mais do que 90.

mas, se até lá tiver amado e tiver sido amada

fui mais rica do que poderei eventualmente dizer.

E é tão bom crer que o amor de agora, 

amor de velhinho há-de ser.






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