730 facadas
Olhei-me ao espelho e não me reconheci.
Despedi-me da minha alma
quando me despedi de ti.
Já só era corpo moribundo
Que pensava ser o fim do mundo
quando te visse partir.
E vi.
- ainda bem
De sorriso cheio
e peito feito
que antes morava em mim,
de cerveja na mão
sem qualquer preocupação
de tudo o que delas deixara cair,
de todos os espaços em branco que deixou por preencher,
de todas as promessas vazias que não conseguiu manter
de todas as palavras bonitas que deixou por dizer.
E foi assim que acabei por perceber
que nunca, para ti, fui poema
que nunca, no silêncio da noite, me quiseste ler.
- E logo eu que sou de tão fácil leitura.
Depois de ti tornei-me em poesia dura
poesia que não rima a qualquer verso,
vítima de um amor que acabou submerso
num ego maior do que o próprio homem.
Fiz das tripas coração,
e percebi que viver a vida numa tradução
seria o mesmo que amar alguém que não ouve a mesma canção.
E no final de contas, era Rui Veloso quem tinha razão,
que amar alguém que não fala o mesmo amor do que nós
é sinónimo de passar a vida inteira a traduzir a alma
e todos os seus nós,
nagalhos e complexidades,
é sinónimo de navegar o barco preso na areia
enquanto me imagino sereia
em todos os mares e oceanos,
é sinônimo de poema ser
e alguém me ler como prosa,
seguida, sem ritmo, sem sal,
sem pausas, sem vírgulas, sem ponto final.
olhei-me ao espelho e não me reconheci.
730 facadas moravam em mim,
a 3 centímetros para além do coração.



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