Morangos com Açúcar

 Hoje fui almoçar a casa da avó. 

passei pelas estantes carregadas de fotografias

e lembrei-me de ti. 

    -de nós


Querida Mia,

devo-te um pedido de desculpas,

antes de te devolver à eternidade das memórias. 

imploro que me desculpes por ponderar, por vezes, desistir,

mas trago em mim o medo constante de te desiludir,

peço-te que me desculpes, acima de tudo, por te deixar ir.

vi-te imóvel,

já com a orelha rasgada,

a sorrir,

com a, agora inexistente, falha nos dentes da frente.

odiavas a monotonia de tentar ser igual

a todo e qualquer mortal,

sempre viste poesia em ser-se diferente. 

vi em ti, a beleza que deixei ir

e que só me pertence, agora, nas memórias.


sempre pensei que quando te escrevesse,

outra vez,

te escreveria uma carta de amor,

afinal, escrevo muro de lamentações, à espera de 1001 perdões

porque finalmente parei e percebi

que desiludo, mais vezes

do que luto pelos sonhos

da menina que cresceu e já não me pertence mais.

a menina que foi forçada a crescer em apenas um segundo,

no quarto sempre diferente 

que lhe deu o mundo.

Quatro paredes feitas escapatória,

portal para a realidade,

sinônimo material da dualidade

de ser calma

ao mesmo tempo que caos.


hoje permiti-me chorar 

porque penso em desistir 

mais vezes do que penso em ti.

agora paro e pergunto

em que ponto da vida te deixei ir

sem me lembrar ao menos que sou fruto de ti.


mas quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir

o aspirador da mãe no fundo 

enquanto, na televisão, via Hannah Montana

e cantava todas as músicas, 

sem exceção,

sem ao menos saber o idioma.

é a felicidade que não retorna.

é a saudade medonha 

daquilo que não volta mais.


Hoje em dia, quando fecho os olhos,

ainda consigo ver o teu reflexo no espelho:

pressa nos pés para ver a bonecada;

a menina sonolenta, na cadeira sentada

enquanto o teu cabelo era apanhado

com dois totós,

um de cada lado da cabeça. 

e sorrias

porque tinha sido a mãe a fazer,

porque sabias que tinha acordado cedo para te vestir

e para fazer o comer.

hoje respondo-lhe torto quando a vida aperta

mas depois lembro-me de ti

e do quanto te lembravas do quanto a vida era injusta com Ela,

lembro-me do quão melhor era a vida

quando ainda cabia no colo dela.

hoje ligo-lhe ao fim do dia,

falamos cinco minutos

e seguimos a nossa vida.

mas vamos trocando mensagens

porque sinto a necessidade de saber

como vão as coisas lá por casa,

porque no momento de maior aperto

é por Ela que grito, 

é o abraço dEla que procuro.

Aí volto a ter a tua altura

e a tua dependência,

volto a ser criança e a só querer ouvir 

que “vai ficar tudo bem”.

acho que não sabe 

a falta que sinto dEla, todos os dias

a falta que sinto de brincar sem preocupações,

de ouvir raspanetes e sermões

porque me esqueci de arrumar o quarto.

Só não cito Pedro Abrunhosa

porque não quero voltar para os braços da minha mãe,

quero nunca sair deles.


Tu nunca sais.

Tens o colo feito à tua medida,

Braços sempre abertos após a saída.

Já eu desejo voltar a casa,

todas as vezes que me engana a vida. 


Espero que na eternidade de ti, nunca te falhe a taça com morangos. E que aos teus morangos, nunca lhes falte o açúcar.








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