O Alguém de Algum dia
Acho, genuinamente, que nunca fui boa nisto do amor. Na realidade, acho que nunca o serei.
Sempre me preocupei mais em escrevê-lo do que em vivê-lo.
Sempre O sonhei mais do que O vivi.
Fui-lhe sempre alheia.
Amei sempre em contra-mão.
Por isso fui sempre desastre. Acidente. Fui sempre luz verde confundida com vermelha.
Fui vítima da estrada e do daltonismo de quem não sabe amar a cores.
Fui sempre estrada sem saída. Com saída.
E este desencontro nasceu quando nasci eu, também.
Li muito quando era pequena. Lia ao compasso que respirava, por isso, respirava poesia.
- Eu sei, assustador.
Li muitos romances que ultrapassavam a minha idade, a minha altura e a minha ingenuidade, romances que me fizeram acreditar na facilidade e espontaneidade do Amor, romances que me convenceram de que todos os Amores vivem em prateleiras adornadas de pó, que todos os amores são vividos em duzentas páginas e títulos escritos a letra cursiva, em tinta dourada.
Convenceram-me de que todos os amores são roteiros de filme, são beijos à chuva, desencontros marcados e beijos demorados ao apagar as luzes.
E o tempo convenceu-me de que nada disso era para mim.
Convenci-me de que sou uma pessoa difícil de amar, de que para mim o amor chega só e apenas em livros de prosa dura, em poemas, em pinturas, em fotografias e em vislumbres próximos dos amores dos outros, que não são o meu.
Convenci-me de que serei para sempre a amiga do riso fácil e da opinião afiada e que ninguém suporta nos filmes, a amiga que se alimenta de ironia e é poço de energia, até não o ser mais.
- Poderia perfeitamente ser a amiga que se muda para outra cidade e que ninguém dá conta. Afinal de contas, o filme segue sem mim. Habituei-me a essa invisibilidade. Vivo bem com ela. Talvez seja ela o meu par romântico no filme.
Convenci-me de que ninguém seria capaz de amar aquilo que só eu vejo e conheço. Convenci-me de que serei sempre a personagem secundária na história que escrevo e vivo, na história que aceitei como minha.
Convenci-me de que os meus cabelos desalinhados e voz rouca matinal não são merecedores de amor.
Convenci-me de que as minhas mudanças de humor são contratempos na vida de quem não perde tempo a sonhar com o Amor.
Convenci-me de que a minha sensibilidade é, na realidade, um defeito e não a maior das qualidades como em todos os clichês do mundo.
Convenci-me de que serei sempre a amiga que falha.
Perdi demasiado tempo da minha vida a convencer-me de tudo isto que agora acho que não me sobra mais nada.
Sou já resquícios de quem sonhei ser um dia.
Convenci-me de que esperar pelo amor não era opção, então comecei a escrever sobre ele na tentativa de que ele se apressasse.
Comecei a escrever sobre ele na tentativa de o esquecer.
Comecei a escrever sobre ele na tentativa de que, pelo menos desta forma, ele me pertencesse. Mas dou por mim a escrever um amor que não é meu.
Dou por mim a analisar as minhas sardas que se camuflam tão bem com todos os outros tons da minha pele que me pergunto se haverá alguém, algum dia, que me olhe tão profundamente ao ponto de as reconhecer. Dou por mim a olhar o castanho dos meus olhos e a questionar-me se esse alguém, que mora no “algum dia”, seria capaz de reconhecer todos os tons que moram em mim com todos os riscos que isso implica, com todas as quedas, todos os vazios, todos os exageros, todas as poesias.
Convenci-me de que não existe “algum dia” nem o “alguém” que nele mora, porque me convenci de que o amor, para mim, só existe onde não existo eu.



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