sinfonia de pessoas normais
Quis o destino que nos quiséssemos mais do que é humanamente possível.
Quis o destino que mais nenhum destino fosse o nosso
que nenhuma outra alma acordaria a minha,
que ninguém me soubesse de cor,
que nenhum beijo soubesse a “para sempre”
que nenhum abraço fosse capaz de ser teto.
Quis o destino que nos quiséssemos por inteiro,
a tempo inteiro.
De formas que ninguém entenderia,
de formas que ninguém adivinha,
de formas que ninguém planeia,
de formas que não se explicam,
de formas que só existem nos filmes, nos livros, nas séries
na poesia que fala sempre sobre ti.
Quis o destino que te quisesse a cada verso,
a cada choro,
que te desejasse a cada vela de aniversário,
a cada estrela cadente,
quis-te casa a cada data comemorativa.
quis o destino que eu não quisesse mais ninguém.
quis o destino que nos pertencessemos em todas as vidas.
procurar-te-ei em todas.
Porque tenho cravada na minha cintura a ausência de ti,
no meu ombro o traçado do teu beijo
e na mente as respirações ofegantes
que se foram num instante.
se fosse poeta escreveria que somos amor de vidas passadas,
almas cruzadas
e corpos predestinados.
fomos corte da mesma faca
e ferida da mesma dor.
amor que dói,
que trama,
que arde,
que fere,
amor que cura.
Cada gota de suor te pertence
Cada pedido de socorro é apenas para que possas ouvir
para que me salvas deste silêncio que me ensurdece.
e a cada mergulho espero que me salves,
porque rasga-se a pele e fica a alma,
porque despimos mais do que a nossa roupa
quando nos temos.
quando nos queremos.
porque somos crus
porque vejo no meu choro um complemento do teu
porque te quero aqui
porque te quero e nunca te quis pouco.
porque te amo e nunca te amei pouco
porque esvaziei a minha alma para me preencher de ti.
e nunca me senti tão inteira.
porque nenhuma rua me leva a casa
porque nenhum teto é lar
porque nenhuma pele é oxigénio
porque nenhuma discussão é debate
porque nenhuma chama é campo de batalha
e nenhuma cama é labareda.
porque nenhum outro alguém és tu
e eu não sei ser eu, assim.
porque em mais nenhuma respiração desalinhada
consigo escrever poemas em linhas direitas
porque em nenhuma canção de amor ou engate
consigo ouvir outra voz errar as letras e afinação sem ser a tua
porque não consigo lidar com outro amante de poesia
que só tenha lido Pessoa.
Porque o meu peito só toca ao ritmo dessa tua orquestra
que toca poesia na tua caixa toráxica
que vive, agora, tão longe da minha.
- a sinfonia de pessoas normais.



Comentários
Enviar um comentário