Carta aberta a 2024

Querido meu (não-tão) querido ano de 2024,

Escrevo-te, já em 2025, com a certeza de que foste o pior ano de que tenho memória. Foste caos, foste maré instável e naufrágio.
Nunca soube navegar o teu barco, nem tu, tampouco, o meu.

Fomos colisão em alto mar. E eu nem sei nadar.

Foste ajuste de contas. 

E por isso, paguei a conta com a vida. Afoguei-me na maresia das lágrimas que me trouxeste, por ser marinheira pouco experiente em mares (des)conhecidos.
Fomos desencontro.
Não nos pertencemos.
Fomos acidente com múltiplos feridos, danos e feridas.
Foste estrada sem saída.

Foste prosa crua, nua e dura.

Foste corte sistemático e persistente da mesma faca.

  • Trezentos e sessenta e seis cortes profundos, lentos.

Foste homicídio na forma tentada. 

Foste atropelo.  

Foste um todo cheio de pequenos nadas que nunca me preencheu. 

E eu que tinha tanta fé em ti.

Senti que me escapaste por entre os dedos como grãos de areia.
E, assim, perdi-te sem nunca, ao menos, te ter tido.  

Em ti, vi “para sempre” ter prazo de validade.

Em ti, vi caras conhecidas virarem estranhos, em ruas escuras, que nem “bom dia” têm para oferecer. 

Vi, em ti, a fragilidade da vida. 

Fui boneca de porcelana nas tuas mãos de segundos, minutos, horas e dias.

Quebrei.

Fui frágil.

Fui colada com remendos de compaixão. 

Furaram-se os bolsos com o peso das palavras que não disse.

Conheci o “poço” de que tanto ouvia popularmente falar.

Escorreguei. Magoei-me.

Arranhões e cortes fundos.
E vi o fundo, dois metros acima

E só não morei lá porque fui segurada por cordas humanas que ouviram a minha muda dor, de tão alto que batia no meu peito. Ao murro, ao soco, ao pontapé.  

00:00h. 1 de janeiro de 2025.

Senti livre o pé quando da cadeira desci. Deixei-te para trás. Deixei todos os cortes, arranhões, visitas ao poço e aulas de natação em água salgada em cima da cadeira. Não os trouxe comigo. Ainda tenho os pensos rápidos e betadine nas feridas que vão sarando ao seu tempo. Mas deixei para trás tudo o que as perfurava e as mantinha abertas. Cosi a sangue frio a tua existência com linha transparente. E pela primeira vez na vida, acreditei que, à meia noite, era mesmo um novo ano e uma nova vida. 

Deixei-te para trás. O último ano em que amei a faca, o poço e a maré que me afogava. 

Começo do início. Nasci hoje. E não há ninguém que me consiga convencer do contrário.


Caro 2024, foda-se.

carta aberta de uma sobrevivente do ano de 2024. 








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