Carolina
A Carolina nasceu num mundo demasiado pequeno para ela. Nasceu da fome e da vontade de viver, nasceu do caos e dum amor tardio, mas foi sempre chegada adiantada e certeira na vida de todos os que tiveram o privilégio de se sentar com ela em mesas de café e noites de bingo no bar da cidade.
A Carolina foi o bebé mais desejado do mundo, foi oração certa que antecedeu todos os adormeceres na última casa da rua.
A Carolina foi imaginada pormenor a pormenor, detalhe a detalhe. Cada piscar de olhos foi sonhado antes de acontecer. Cada riso era provocado propositadamente para que o mundo pudesse ter o privilégio de adormecer embalado pelo som da sua felicidade.
Cara do pai e alma tal qual a da mãe. Amor de todos os que lhe põem a vista em cima. Página com canto dobrado em todos os capítulos de histórias das pessoas que se vão cruzando com ela.
A Carolina é filha de um amor de cinema e talvez por isso se tenha sempre forçado a procurar vinhetas em todos os afetos de que foi anfitriã, talvez por isso tenha sido sempre personagem principal de dramas e comédias românticas que relatava às suas amigas, solenemente acompanhadas de um aperol spritz, na sala de sua casa que virava ponto de encontro todas as sextas-feiras à noite.
A Carolina nunca teve medo de envelhecer, achava uma certa piada ao passar dos anos. Imaginou-se sempre amiga de rugas de expressão de tanto rir durante a sua vida. Imaginou-se sempre com uma casa grande na cidade que a fizesse viajar sempre que a saudade fosse maior do que a memória.
A Carolina nunca conheceu limites. E os limites nunca conheceram a Carolina. O mundo nunca colidiu num momento em que se precisassem. Ela escreve, muito. sobre tudo. sobre nada. Nunca pede desculpa pela sua verdade, pela sua intenção e amor porque não acredita no exagero de querer demais, de amar demais. Porque não acredita em exageros. Mas acredita em signos, lê o horóscopo todos os dias antes de sair de casa para ir para o trabalho.
Mora em Lisboa, num apartamento T1 que alugou mal se mudou para lá. Nunca mudou de casa, mesmo o salário assim o permitindo e quando as amigas lhe perguntam o porquê a resposta é imediata e pré-fabricada, porque as conhece como a palma da sua mão e porque não gosta de contar a verdadeira razão.
Não que tenha medo da vulnerabilidade, nunca foi esse o caso. A Carolina coleciona memórias e o seu apartamento é cenário das melhores lembranças que tem na vida, porque ganhou raízes em todos os metros quadrados de carpete amarela, porque é nas quatro paredes que a abraçaram quando o mundo como ela conhecia parecia longe demais, que encontra conforto e a utopia da cura para a saudade. Decorou cada canto daquela casa como se fossem universos paralelos que lhe pertenciam somente a ela. Nunca precisou de se explicar. Nunca precisou de explicar o que sentia e a forma em como sentia.
E foi sempre essa a magia da Carolina.
Porque foi sempre sem pedir licença ou desculpa por ser.
A Carolina estudou artes, no secundário e, mais tarde, migrou para a área da comunicação. E apaixonou-se num bailado intenso que dura até hoje. Acabou a faculdade na sua terra natal e, mais tarde, acabou o mestrado em Lisboa onde acabou por ficar a morar, onde acabou por se tornar a mulher que é hoje, a mulher que defende, em todos os jantares de natal, que francesinha é sempre acompanhada de uma cerveja. Trabalha na área da comunicação do desporto e ama o que faz.
Trabalha muito, não conhece o significado de pausas ou férias há cinco anos consecutivos. mesmo quando está do outro lado do mundo atende todas as chamadas que comecem com +351. Defeito ou feitio é uma nómada que gosta de sentir os pés bem assentes em casa. e é por isso que volta sempre. - até ao dia em que escolha não voltar mais. e mesmo aí, qualquer lugar que escolha, vai ser casa. porque há 28 anos que casa é onde a carolina estiver. porque o mundo é pai solteiro sem licença de paternidade de uma criança irrequieta de seu nome carolina, miúda resiliente e independente com tranças loiras no cabelo e joelhos ralados.



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